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Então lhe trouxeram algumas crianças para que lhes impusesse as mãos, e orasse; mas os discípulos os repreenderam. Jesus, porém, disse: "Deixai as crianças e não as impeçais de virem a mim, porque de tais é o reino dos céus." E, depois de lhes impor as mãos, partiu dali.
Mateus 19:13-15

A Bíblia (João Ferreira de Almeida Atualizada)

Sempre aprendo com essa passagem. É tão minúscula, e mesmo assim tão cheia de significados... Mas cada vez que a leio, sinto-me mais e mais consternado. Quero dizer, devemos agir como crianças, eu sei... Mas o que está por detrás dessa metáfora (e que, na minha humilde opinião, é fundamental à compreensão da fé cristã)?

O fato é que, através dos anos, desenvolvi este conceito, ainda não entendido de todo. E não sou eu, o pretenso teólogo, que o está dizendo; mas o homem que está por detrás desta máscara high-church, que sente e percebe que há ainda um evangelho vivo e que Deus está sempre falando de formas misteriosas. E este conceito, que chamo de "ortodoxia gentil", é de alguma forma minha abordagem à palavra "ortodoxia", a qual é cada vez mais associada à uma guerra em curso dentro de todas as denominações cristãs.

Cristo abençoando as crianças, por Edward Burne-Jones (Troutbeck, Cumbria - Reino Unido) - foto de P. Neil RalleyEsta ortodoxia gentil me traz à minha infância. E lembro-me das primeiras impressões que tive ao ir à igreja. Os corais que soavam como anjos a cantar (ainda que nem fossem tão bons assim), os aromas soberbos, todas aquelas pessoas entrando e saindo, sacerdotes vestindo belíssimas vestimentas (que poderiam apenas ser um terno e clerical, mas ainda, algo divertido), e todas aquelas aulas de educação cristã. Eu podia desenhar, cantar e ouvir histórias sobre como era simpático o Senhor Jesus com aqueles que conversavam com ele. O meu Jesus era esse moço agradável, com um grande sorriso, e que vestia aquelas capas lindas e estava sempre cercado de muitas pessoas. Nem me importava com quais pessoas ele estaria. Tudo o que sabia é que o meu doce Jesus as abençoaria a todas e que tomaria conta de todos eles - para sempre! Eu me lembro de pensar que o céu era cheio de nuvens felpudas, e que podíamos de fato andar sobre elas. Poderíamos encontrar toda a gente, e todos viveriam por lá em harmonia, como se fossem uma grande família. E o Senhor Jesus era dócil, e seu Papai, o bom Deus, nos quer (e nos convida) vivendo com eles, onde não há maldade e poderemos encontrar todos esses grandes homens e mulheres que já se foram. E havia esse livrinho lindinho (a Bíblia), a qual nos convidavam a trazê-la conosco, mas era apenas um livro a partir do qual belíssimas histórias sobre esse Deus bom (e o rapaz legal Jesus) eram selecionadas. Nem sabíamos que era necessário conhecer seu entendimento de todo - verso por verso - porque nós sabíamos e confiávamos nesse Deus gentil, e assim, podíamos falar a Ele diretamente, através da oração, antes de ir para a cama...

E agora pergunto: por que deixamos esta ortodoxia gentil?

A ortodoxia gentil ainda acredita que o Senhor Jesus possa fazer milagres. Ela não nega Sua existência. Ele vive dentro de nós, e trabalha em nossas vidas todo dia. Ele é aquele que já esteve aqui, mas agora está com o Seu (e nosso) pai: o Deus Todo-Poderoso. Ele nos ama de todo o coração, e nos quer amando a todos, porque Ele ama a todos.

A ortodoxia gentil atesta que todos são convidados a seguir esse simpático Senhor Jesus. Do mesmo modo que Ele tinha tantos seguidores, podemos trazer mais e mais pessoas às suas casas de adoração. E Jesus tomará conta delas. Não precisamos dizer o que é certo ou errado (de acordo com nossos próprios conceitos). De fato, quando o fazemos, negamos que Jesus as contaria o que fazer, seja miraculosamente, seja através de Suas palavras.

A ortodoxia gentil acha graça em tudo. Ela vê Cristo através de tudo, e está sempre tentando ajudar a todos que estão em necessidade. Ela quer ver a todos: vestidos, alimentados, felizes e contentes. E quer que todos vivam como crianças, contando estrelas e pulando sobre poças d'água.

A ortodoxia gentil acredita que tudo pode ser bonito, pois Deus é bonito, e Ele pode tornar tudo tão bonito quanto Ele é. Para a ortodoxia gentil, a beleza é um conceito sutil, e não segue fórmulas da moda. Pode-se ser bonito aos noventa anos, coberto de sorvete, vestido como um palhaço... É o coração que importa.

Há sempre perdão na ortodoxia gentil. Brigas não duram por muito tempo. E sempre há a chance de reconciliação depois delas. As pessoas podem ser felizes juntas, ainda que tenham dito coisas dolorosas umas às outras no passado.

A ortodoxia gentil sabe que Deus nos quer salvar a todos. Ela nos induz a contar sobre Jesus e agir como Jesus. Mas ela sabe que todos aqueles que não foram capazes de encontrar Jesus serão bem cuidados... Porque Deus é bom, e Ele ama o mundo inteiro.

A ortodoxia gentil nem sabe o que quer dizer "ortodoxia". Ela ainda pensa que ortodoxia são belos ícones, igrejas orientais e a liturgia de São João Crisóstomo. Por sinal, a ortodoxia gentil ama ícones, estatuetas, sinos, velas e todos os acessórios litúrgicos, porque eles também podem nos fazer nos sentirmos nos céus. Ela respeita os que não os usam, mas não acredita que sejam nocivos.

Amados, enquanto eu empregava toda a diligência para escrever-vos acerca da salvação que nos é comum, senti a necessidade de vos escrever, exortando-vos a pelejar pela fé que de uma vez para sempre foi entregue aos santos. Porque se introduziram furtivamente certos homens, que já desde há muito estavam destinados para este juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de nosso Deus, e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo.
Judas 1:3-4

A Bíblia (João Ferreira de Almeida Atualizada)

A ortodoxia gentil repousa sobre Jesus, o Senhor. E conseqüentemente, repousa sobre o amor. Amor incondicional, amor eterno... Porque quando permitimos a Jesus ser nosso senhor, deixamos o Amor Divino fluir pelas nossas veias.

Eu quero ser criança de novo. E quero essa ortodoxia gentil de volta. O cristianismo inocente, que não julga, entregue aos santos, e que repousa nos corações de todos aqueles que seguem este caminho diário de morte e ressureição, de morrer e nascer de novo, de ser como crianças e ver o mundo como Jesus o veria.

Quero dedicar este pequeno texto a todos os que emanam essa fé gentil e ortodoxa... Primeiramente, agradeço ao meu caro Rob, que iluminou minha vida de diversas formas. Também, queria agradecer a todos os heróis da blogosfera (e de fora da blogosfera), como Jared Cramer (um compassivo estudante de MDiv no Texas), Grace (a moça luterana que acha bondade em tudo), Grandmère Mimi (e seus pensamentos amáveis), Jonathan MadPriest (que me rouba várias risadas diárias), Éverton Vidal (a metamorfose ambulante), Edi (um coração quente, perdido no tempo e no espaço), Fr. Jake (com sua obsessão pela justiça), Leonardo Ricardo (lutando contra a intolerância e o preconceito), Mickey (e suas festas dançantes latino-americanas), Michelle (minha beudinha), KJ, Livia Cassandra (minha "fófis"), Christopher (e seu amor inspirador e compromissado ao seu companheiro), Virginia, Richard e todos os meus amigos da All Saints', Duda (o clone vermelho do Jô), o bom Prior Aelred, Susan S., Jeremy, Fr. John-Julian, o clero da minha paróquia, Josh Ligan (pulando sobre as poças), J. C. Fisher, Rick Allen, Jon Zuck, David Green, Bob Griffith e tantos outros nos quais posso sentir uma amostra dessa inocência que me contagia a restaurar minha gentileza novamente.
Mais que isso, queria também agradecer a este casal amável, que mal pode ler e mandar e-mails, mas que representa para mim o ideal mais perfeito (na Terra) do que é uma "ortodoxia gentil"... Meus avós.





Leitura complementar:
Mateus 19
Judas 1
 

Abençoe o amor

 -  posted on 02/11/06 at 20:35:49




Não somos mais
que uma gota de luz,
uma estrela fugaz,
uma faísca, tão somente,
na idade do céu.

Não somos o
que queríamos ser,
só um breve latido
em un silêncio antigo
com a idade do céu.

Calma,
tudo está em calma,
deixe que o beijo dure,
deixe que o tempo cure,
deixe que a alma
tenha a mesma idade
que a idade do céu.

Não somos mais
que um punhado de mar,
uma piada de Deus,
um capricho do sol
no jardim do céu.

Não nos damos conta,
entre tantos tic tacs,
entre tantos big bangs,
só um grão de sal
no mar do céu.

La edad del cielo (tradução)

Jorge Drexler
Clique aqui para ver a letra original

O céu... Cada vez que ouço falar do céu, muitos sentimentos diferentes vêm à minha mente. Lembro-me das aulas de astronomia que tive na faculdade, e das noites que perdi naquele terraço, mirando a estrela sigma octantis com um teodolito astronômico. Lembro-me da neve gentilmente caindo sobre minha cabeça coberta, ao percorrer as ruas labirínticas de Salamanca. Lembro-me dos majestosos pores-do-sol amazônicos que podia ver da Estrada da Ponta Negra, ao dirigir apra casa em Manaus. Lembro-me de olhar para o céu e tentar perceber onde estava o cruzeiro do sul, quando tinha 9 anos de idade, em Rio Grande. Lembro-me da calma das nuances de azul em Cabo Canaveral, abruptamente interrompida por um efêmero lançamento de foguete. E lembro-me dos ventos fortes e do frio cortante que senti ao subir a torre Eiffel. Mas também sinto as ventanias diárias no centro do Rio ao atravessar a Av. Presidente Vargas para pegar o metrô, o que me obriga a "re-pentear" meu cabelo onde quer que eu vá...

O céu é tão vasto e infinito que cada vez que penso nele, Deus vem à minha mente. Os antigos viam Deus nessa vastidão. Muitos deles pensavam que o céu e suas "criaturas" fossem, de fato, deuses e deusas. Os seres humanos não sabem lidar com o infinito. Estamos sempre fazendo as seguintes perguntas: Quando? Quanto? Por quanto tempo?

Mas o céu é infinito, e assim, não é inteiramente compreensível... Não podemos medi-lo, exceto de uma forma poética. É o último símbolo de Deus. E é o lugar para onde olhamos quando tentamos falar com Ele. O céu é celestial...

E assim também é o amor.

O amor é, ao mesmo tempo, saboroso e sem sabor. Não pode ser entendido. Não pode ser visto. Só se sente. E é tão constrangedor imaginar que, sem o amor, seríamos apenas meras criaturas: latidos no meio de um duro silêncio, faíscas, gotas... Freqüentemente nos imaginamos únicos e importantes, mas, ao final, somos apenas mais alguém tentando sobreviver neste mundo. E se não fosse pelo amor, nossa vida não teria sentido.

O amor é a ferramenta que Deus nos providenciou para alcançar a eternidade. Através do amor, Deus garantiu a nós salvação. Além do amor, encontramos alegria eterna. Em meio a amor, Cristo foi concebido. Com amor, Ele pregou. Amor natural. Amor vindo de Deus.

E quando amamos nossos amantes, amigos, filhos, parentes e até nossos inimigos, estamos meramente retransmitindo este amor no qual Deus repousa. O amor nos conecta com o infinito. Dá-nos força para seguir adiante. Restaura nossa dignidade. Imerge-nos neste grande mar de compaixão que chamamos vida. O amor interrompe esta reação de degradação em cadeia. Através do amor, experimentamos Deus em muitas formas inacreditáveis. O amor é, com certeza, uma bênção.

E uma igreja que não abençoa o amor não merece ser chamada de igreja.

O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece, não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal; não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais acaba; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas, quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido.
Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, o amor, estes três; mas o maior destes é o amor.

I Coríntios 13:4-13

A Bíblia (João Ferreira de Almeida Atualizada)

Temos que nos regozijar com esta maravilhosa bênção chamada amor. E quando tornarmos este mandamento divino um verdadeiro sacramento (i.e. uma mediação visível do que é sagrado), teremos tomado mais um passo em rumo à cura de nossas feridas e ao alcance de mais uma faceta da graça divina.

Então, sacramentalizemos esses momentos eternos de completamento e celebremos juntos que somos um só corpo de pessoas que sentem amor, e através dele, nos tornamos tão antigos quanto a idade do céu.

Não queria começar outra discussão com uma música, especialmente do Drexler, e tão cedo... Mas esta música (uma das minhas favoritas de todos os temos) falou ao meu coração durante a última semana, de tantas e imprevisíveis formas que senti-me obrigado a dividi-lo aqui.

Leitura complementar:
I Coríntios 13