English
Português



view this weblog as RSS ! RSS Feed

 

Sentindo-se em casa

 -  posted on 20/01/07 at 14:05:08



Então voltou Jesus para a Galiléia no poder do Espírito; e a sua fama correu por toda a circunvizinhança. Ensinava nas sinagogas deles, e por todos era louvado.
Chegando a Nazaré, onde fora criado; entrou na sinagoga no dia de sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler. Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías; e abrindo-o, achou o lugar em que estava escrito:
"O Espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e para proclamar o ano aceitável do Senhor."
E fechando o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele. Então começou a dizer-lhes: "Hoje se cumpriu esta escritura aos vossos ouvidos".

Lucas 4:14-21 - Terceiro domingo depois da Epifania (ano C)

A Bíblia (João Ferreira de Almeida Atualizada)

A sensação de voltar para casa é sempre maravilhosa, especialmente para quem já esteve em muitos lugares, viu muita gente e experimentou diferentes culturas. E até ouso dizer que nada se compara à "casa" que tivemos quando crianças. Não importa se era um suntuoso palácio ou somente o colo da mãe... Aqueles eram bons tempos, de qualquer modo. Divertíamo-nos todo o dia, não tínhamos medos e preocupações... Assim, a idéia de "voltar para casa" está sempre relacionada a esse senso de "amor inocente" que podemos encontrar somente ali: memórias eternas que vão ficar para sempre nas nossas mentes. É como os populares dizem: "não há lugar como a nossa casa".

Infelizmente, este "passado inocente" não volta jamais. Podemos visitar tais lugares que falam aos nossos corações e lembrar-nos de tais memórias. Entretanto, não podemos tê-las de novo. Como Adão e Eva, que foram tirados do jardim do Éden - o paraíso na Terra, estamos separados de tais momentos, e uma sensação de "não se sentir em casa" nos persegue. Ainda assim, continuamos voltando a lugares especiais apenas para "viver novamente" pequenas lembranças da vida maravilhosa que tivemos no passado.

E se forçarmos um pouco a imaginação, podemos imaginar aquelas ruas de Nazaré: cheias de poeira e areia... Uma vila calma em meio ao deserto, com casas humildes e um ar tão puro! E posso ver Nosso Senhor Jesus Cristo caminhando através das mesmas ruas onde Ele brincava com seus amigos de infância. As mesmas travessas que Ele cruzou várias vezes, levando madeira para a carpintaria de São José... E por um momento, posso visualizá-Lo respirando aquele ar familiar e andando calmamente em direção à sinagoga - a mesma casa de oração que Ele freqüentou por anos.

O que nós faríamos se estivéssemos lá? Imagino que conversaria com meus amigos, ficaria com meus parentes e relaxaria. Essa seria a minha maneira de lembrar-me e refletir sobre o amor que senti ao viver ali. Eu nunca pensaria em proclamar algo novo ou anunciar o cumprimento de uma profecia. Entretanto, Jesus sentiu que tinha de ir lá, à sua terra natal, visitar aquela sinagoga e ler a profecia de Isaías. He poderia ter ido ao Templo de Jerusalém, ou a sinagogas mais suntuosas. Mesmo assim, Ele escolheu aquela, que Lhe era tão familiar. Aquela era sua casa.

E o que Ele proclama ali? Ele proclama uma mensagem que está incrustada na alma do Evangelho, mas que há muito tem sido esquecida. E até mesmo nos nossos tempos, ainda é tida como um segredo. E essa mensagem é que Deus nos ama incondicionalmente. E o Espírito, essa entidade etérea - a face mística da Santíssima Trindade, abençoou Jesus, o Filho de Deus, para pregar essas boas novas, as quais chamamos "o Evangelho".

Criação - arte digitalMas o Nosso Senhor Jesus não para aí. Ele deliberadamente reinterpreta aquele texto, incluindo um mandamento para libertar os oprimidos. E é claro que os cegos, os cativos e todos aqueles judeus que choravam eram oprimidos. Entretanto, Jesus não pode mais concentrar Seu ministério apenas naquelas pessoas. Porque Ele foi enviado para reconciliar o mundo inteiro... E mais que isso, Ele veio para instaurar o amor de Deus como a única lei que nós devemos ter, e para implementar esse Evangelho como o combustível que gera energia para estimular nossa existência aqui.

E assim, nada mais precisa ser lido, e Ele enrola o pergaminho. Ele não precisa falar da vingança de Deus (que seria o verso seguinte). Esse não é o foco d'Ele. Ele veio para que tivéssemos salvação e reconciliação com Deus: nossa "casa", nosso "jardim do Éden".

Nosso Senhor Jesus Cristo foi à sua casa para pregar o Evangelho ao mundo inteiro, para que o mundo inteiro possa ser nossa casa, para nós que seguimos o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

E todos nós sabemos que este mundo está longe de se "casa" para nós. É um lugar triste e sombrio. Entretanto, tenho esperanças que este pequeno grupo de pessoas que se reúnem, sem levar em conta idade, cor da pele, sexualidade, nível educacional, salário... que este grupo possa ser abençoado pelo Espírito do Senhor, para curar os oprimidos e libertá-los de seus medos. Pois é tempo que nós proclamemos o ano aceitável do Senhor, e tornemos este mundo Sua casa, Sua casa de oração, Seu segundo Éden, onde ninguém terá a sensação de "não pertencer", onde todos seremos um... eternamente.

Mensagem compartilhada na Igreja na Rua (Ecclesia Ministries) da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, em 20/01/2007.

Leitura complementar:
Lucas 4
Isaías 61
 

Benedicta tu in mulieribus

 -  posted on 11/01/07 at 14:56:23



Exulta, ó Virgem Theotokos,
Maria, cheia de graça,
O Senhor esteja contigo;
Bendita és tu entre as mulheres,
E bendito é o fruto do teu ventre,
Por ti nascerá o Salvador de nossas almas.

Saudação Angélica (Ave Maria), segundo o Rito Bizantino e Ortodoxo Oriental, baseada no Evangelho segundo São Lucas

Annunciação por El Greco - domínio públicoImpressiona-me bastante quando descubro que, para alguns, uma simples Ave Maria pode ser mais ofensiva que advogar bênçãos matrimoniais homossexuais, direitos iguais à ordenação, e outros assuntos controversos. E é inacreditável que a Bem-Aventurada Virgem Maria, que foi sempre uma figura central no Cristianismo, tenha sido esquecida por tanta gente, especialmente hoje em dia.

É verdade que pouco foi dito sobre Maria no princípio. Ela era uma mulher, afinal de contas, e mulheres eram consideradas cidadãos de segunda-classe entre os judeus daquela época. Também, ela era provavelmente analfabeta, e não pôde deixar nada por escrito. Assim, espera-se que apenas os eventos mais relevantes sobre sua vida sejam encontrados nas Sagradas Escrituras. Entretanto, tais passagens foram tão profundas que, se mescladas com a informação que o povo daquela época tinha sobre ela (e que, posteriormente, foi reagrupada pela Tradição), pode-se inferir que Maria teve um papel importante no Cristianismo.

E, é claro, Maria sempre foi "um dom, uma certa magia". Mesmo quando a devoção mariana era desencorajada, ela voltaria ainda mais forte, e normalmente ligada a eventos sobrenaturais. O movimento de Oxford que aconteceu dentro da Igreja da Inglaterra, e que depois se espalhou em toda parte, sob o nome de "Anglo-Catolicismo" era meramente uma explosão de crenças que eram sobrenaturais para muitos, mas mantidas em segredo. Mas se uma falta de cuidado com Maria pode ser desrespeitosa, a devoção mariana extrema pode ser considerada idolatria também. Assim, qual seria um lugar seguro e equilibrado para estabelecê-la no 3o milènio? É a Virgem apenas uma quimera do passado ou ela ainda fala aos nossos corações no dia de hoje?

Primeiramente, Maria é um símbolo de pureza. Sabe-se que Deus a escolheu, entre todas as mulheres, para ser aquela que levaria Seu Filho unigênito em seu útero. É claro que Deus é Deus, e, dessa forma, miraculoso. Deus não precisava se manifestar dessa forma. E ninguém nunca entenderá o mistério por detrás da Incarnação (alguns nem acreditam nela da forma convencional). Mas há algo nessa história que ainda me toca... Ele a escolheu, o que significa que Ele a tinha de modo especial. E, é claro que Deus ama a toda a humanidade, mas o fato de que Ele viu graça e virtude nela mostra-nos que o Deus que louvamos não está relacionado a palácios e belas vestes. Ele está muito mais interessado nos nossos corações. E Ele viu a santidade no coração de Maria. Ela nos mostra que um ser humano pode ser santo perante o Senhor e um agente de suas incontáveis bênçãos...

Maria também representa um grupo de pessoa que foi ignorado pela humanidade até então: as mulheres. Elas eram geralmente consideradas seres inferiores. Entretanto, Deus transferiu Maria do posto desgraçado que a sociedade a colocava à Sua santidade. E podemos estender esse conceito a todos aqueles que foram marginalizados pelo nosso mundo tormentoso: minoriais raciais, sexuais e religiosas, escravos, pobres, idosos, crianças... Através de Maria, descobrimos que Deus toma conta de todas as Suas cirianças, e que não há nenhum grupo especial de pessoas que são mais amados por Ele. Como a "segunda Eva", ela restaura-nos de volta ao estado de igualdade perante Deus, mostrando-nos o caminho da salvação através de Seu Filho.

Maria traz-nos o conceito de maternidade. Sua vida é um exemplo de como devemos nos comportar como pais. E é óbvio que os pais são as primeiras pessoas a quem dirigimos nossas afeições. Quando pensamos em Maria segurando, alimentando e tomando conta do menino Jesus, desejamos profundamente ser como ela com as nossas crianças, e também amá-la como nossa mãe "maior". A Santa Mãe de Deus é central ao nosso entendimento de paternidade e maternidade em meio a esta sociedade calamitosa. Ela deveria ser a luz que nos guia através das nossas famílias todos os dias.

Maria é, ainda, um símbolo de submissão. Ela nunca duvidou que tinha que seguir a vontade de Deus. Não vemos nela nenhum sinal de relutância. Ela sempre esteve lá, a Seu comando, e pronta para seguir Seu desejo. Quando nos tornamos como ela, passamos a ser verdadeiros servos de Deus. Nossa vontade passa a ser a vontade de Deus. E, através das ações de Maria, ela nos incita a deixar Deus tomar conta de nossas vidas, da mesma forma que Jesus nos propõe que sejamos ao orarmos o Pai Nosso.

Ser como a Bem-Aventurada Virgem Maria é, no final das contas, ser especial para Deus, e cheio de graça aos Seus olhos... uma bênção em vida. Ser como a Mãe de Deus é carregar Jesus dentro de nós, e, da mesma forma que Ele foi alimentado em seu útero, devemos alimentar o Cristo que vive dentro de nós, seguindo Seus mandamentos. Ser como a Santa Virgem Maria é mostrar que nós, simples seres humanos, podemos seguir nossos passos e sermos santos para Deus. Ser abençoada entre as mulheres é saber que mulheres podem ser abençoadas como os homens. Ser como a Alegria para todos os que Sofrem é ser igual a toda a gente aos olhos de Deus... é ser humano, e conseqüentemente, sensível aos sofrimentos das pessoas. Ser como a Rainha do Mundo é saber que nossas vidas devem seguir seu exemplo, e nossas famílias devem ser como foi sua família. Ser como a segunda Eva é um modo de mostrar completa submissão à vontade de Deus.

Amada Mãe de Nosso Salvador, Senhora dos Anjos, Virgem Theotokos, Estrela do Mar, Rainha da Paz, Rainha do Céu, Nossa Rosa, Trono de Sabedoria, Nossa Senhora... Maria nos aponta para o divino - aquele que veio para redimir o mundo: Jesus Cristo. Sigamos seu exemplo e regozijemo-nos, pois o Rei do Universo já veio.

Leitura complementar:
Lucas 1