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Woman in chains (mulher acorrentada)

 -  posted on 26/07/07 at 21:10:52



Javé apareceu a Abraão junto ao Carvalho de Mambré, enquanto ele estava sentado à entrada da tenda, pois fazia muito calor. Levantando os olhos, Abraão viu na sua frente três homens de pé. Ao vê-los, correu da entrada da tenda ao encontro deles e se prostrou por terra, dizendo: «Senhor, se alcancei o seu favor, não passe junto ao seu servo sem fazer uma parada. Vou mandar que tragam água para que vocês lavem os pés e descansem debaixo da árvore. Vou trazer um pedaço de pão e vocês poderão recuperar as forças antes de partir; foi para isso que passaram junto ao servo de vocês». Eles responderam: «Está bem. Faça o que está dizendo».
Abraão entrou correndo na tenda onde estava Sara, e disse a ela: «Depressa! Tome vinte e um litros de flor de farinha, amasse-os e faça um pão grande». Depois Abraão correu até o rebanho, escolheu um vitelo novo e bom, e o entregou ao empregado, que se apressou em prepará-lo. Pegou também coalhada, leite e o vitelo que havia preparado, e colocou tudo diante deles. E os atendia debaixo da árvore enquanto eles comiam.
Depois eles perguntaram: «Onde está sua mulher Sara?» Abraão respondeu: «Está na tenda». O hóspede disse: «No próximo ano eu voltarei a você. Então sua mulher já terá um filho». Sara estava na entrada da tenda, atrás de Abraão, e ouviu isso. Ora, Abraão e Sara eram velhos, de idade avançada, e Sara já não tinha regras. Sara riu por dentro, pensando: «Agora que sou velha vou provar o prazer, e com um marido tão velho?» Javé, porém, disse a Abraão: «Por que Sara riu, dizendo: ‘Será que vou dar à luz agora que sou velha?’ Por acaso, existe alguma coisa impossível para Javé? Neste mesmo tempo, no próximo ano, eu voltarei a você, e Sara já terá um filho». Sara, que estava assustada, negou: «Eu não ri». Mas ele tornou a dizer: «Não negue, você riu».

Enquanto caminhavam, Jesus entrou num povoado, e certa mulher, de nome Marta, o recebeu em sua casa. Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor, e ficou escutando a sua palavra. Marta estava ocupada com muitos afazeres. Aproximou-se e falou: «Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço? Manda que ela venha ajudar-me!» O Senhor, porém, respondeu: «Marta, Marta! Você se preocupa e anda agitada com muitas coisas; porém, uma só coisa é necessária, Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada.»

Gênesis 18:1-14 e Lucas 10:38-42 - Próprio 11 depois de Pentecostes (ano C)

A Bíblia (Pastoral)

Durante minha infância e por boa parte da minha vida, ouvi o relato de Abraão e os três anjos que foram visitá-lo. Mas hoje, não quero pensar sobre Abraão. É claro que ele foi muito importante naquele contexto, sim, mas quem me preocupa neste momento é Sara – principalmente porque a realidade de Sara ainda nos fala bastante aos corações.

Todos sabiam que ela não era jovem, nem fértil. De forma alguma poderia engravidar... Mas então, aqueles três anjos, disfarçados de homens, a visitaram (e também ao seu marido) e anunciaram que ela teria uma criança. Sara riu. Ela duvidou do fato. Imagino que ela provavelmente passou um certo tempo a preparar comidas e bebidas para os hospedes, é claro, por detrás das cortinas – escondida deles. Posso até vizualizá-la carregando uma bandeja com bebidas e, nesse momento, ouvindo tal conversa...

Sara riu. Aquilo era a única coisa que lhe era permitido fazer.

E então também temos Maria e Marta, duas mulheres judias, assim como Sara... Essas duas, entretanto, viveram neste mundo muito tempo depois da outra, e tiveram a oportunidade de conhecer Jesus, nosso Senhor. Gostaria eu de ter tal honra! É claro que encontramos Cristo nos sacramentos, mas como seria se o Filho de Deus visitasse nossas casas? E é por isso que simpatizo muito com Maria... Ela acolheu Jesus, abriu a porta e celebrou a festa com Ele. Marta, entretanto, não se permitiu dividir tal momento. Ela tinha muito que fazer! É claro, pois ela era uma mulher, e as mulheres tinham que limpar, levar, cozinhar e servir. E não havia tempo para festejos.

Marta nem quis rir. Ela não se permitiu rir.

Trindade de RublevPor séculos e séculos, as mulheres estiveram por detrás das cortinas na Igreja Cristã. A mesma Igreja que proclamava que não havia "homem nem mulher" era aquela que forçava as mulheres a usarem véus pessoais que não somente as cobriam dos outros, mas também do serviço de Deus. Nossas ancestrais limparam cálices, lavaram o chão, plantaram flores, cozinharam alimentos e fizeram muitas outras tarefas de valor para a Igreja, mas, ainda, por detrás das cortinas. De acordo com o que muitos pensavam, elas não eram "boas o suficiente" para se aproximarem do altar, remover seus véus e celebrar a festa com o Cristo sacramental.

O famoso ícone da Trindade de Rublev representa a Santíssima Trindade como aqueles três anjos que visitaram a casa de Sara e Abraão. Significava, de alguma forma, um encontro com Deus. Contudo, devido à lei e aos costumes do povo judaico, apenas Abraão teria acesso àquilo. Em Cristo, entretanto, todas as cortinas foram removidas, todos os servos foram redimidos e todas as pessoas – mulheres e homens – foram permitidos tomar parte da festa eucarística, como irmãos de Cristo, e desse modo, parte eterna da família de Deus. Maria podia, então, alcançar Cristo e ser como Ele. Ela era tão valiosa para Ele como qualquer um. Não precisava duvidar; não precisava rir de si. Ela estava certa do milagre de Cristo: a redenção e união de todos os povos como uma só família, na qual não há graus de relevância ou serviço.

Tal liberdade em Cristo, entretanto, não abraçou a todos ainda. Existem as "Martas", que não somente criaram cortinas para se esconderem, mas também condenam quem está na sala celebrando com Cristo...

Rev. Mary Lucas (1977) - foto de Lucas ReevesNeste fim de semana, tive a oportunidade incrível de tomar parte do Encontro de Lideranças da Juventude Anglicana, em Curitiba, e também de conhecer tantas mulheres ativas e valiosas – leigas e ordenadas (algumas com muitos anos de ministério). Este texto, por sinal, está ligeiramente baseado num "sermão midrash" que fomos convidados a criar... E ali eu estava, cercado por duas jovens diáconas e uma leiga, discutindo sobre Sara, Maria, Marta e a Igreja de Cristo. No dia seguinte, uma delas pregou sobre algumas das idéias que tivemos na Missão São Pedro, em Curitiba, uma igreja que atualmente é liderada pela mulher com mais tempo de ordenação aqui no Brasil.

E na minha opinião, a grande transformação que nossas jovens e nossos jovens têm que realizar é tornar nossa Igreja mais hospitaleira e aberta às pessoas, vivendo o famoso “unidade na diversidade”. Temos que entender que Jesus veio para todos, e, já que não há diferenças entre nós, todos estão qualificados para o Seu serviço. É preciso buscar Cristo em cada ser humano, independentemente de idade, gênero, etnia, nacionalidade, orientação sexual e outros fatores divisivos. É necessário convencer as Martas e as Saras de nossa sociedade que também são filhas (e filhos) preciosas de Deus e assim, podem se permitir ser tudo aquilo que Deus lhes reservou.

Amém.