-
posted on 27/08/07 at 08:35:04
Vocês não se aproximaram de uma realidade palpável. Ali havia fogo ardente, escuridão, trevas, tempestade, som de trombeta e ruído de palavras. E as pessoas que ouviram isso, suplicaram que Deus não dissesse mais nada.
Entretanto, vocês se aproximaram do monte Sião e da Jerusalém celeste, a cidade do Deus vivo. Vocês se aproximaram de milhares de anjos reunidos em festa, e da assembléia dos primogênitos, que têm o nome inscrito no céu. Vocês se aproximaram de Deus, que é juiz de todos. Vocês se aproximaram dos espíritos justos que chegaram à meta final, e de Jesus, o mediador de uma nova aliança. Vocês se aproximaram do sangue da aspersão, que fala muito mais alto que o sangue de Abel.
Cuidado! Não deixem de escutar aquele que fala a vocês. As pessoas que recusaram escutar aquele que as advertia na terra, não escaparam do castigo. E menos ainda escaparemos nós do castigo, se nos afastarmos de quem nos fala do alto do céu. Aquele, cuja voz um dia abalou a terra, agora diz: «Mais uma vez farei estremecer, não somente a terra, mas também o céu». A expressão «mais uma vez» anuncia o desaparecimento de tudo aquilo que participa da instabilidade do mundo criado, para que permaneça só o que é inabalável. Já que recebemos um reino inabalável, conservemos bem essa graça. Por meio dela, sirvamos a Deus de tal modo que o agrademos, isto é, com respeito e temor. Pois o nosso Deus é um fogo devorador.
Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo caminho para Jerusalém. Alguém lhe perguntou: «Senhor, é verdade que são poucos aqueles que se salvam?» Jesus respondeu: «Façam todo o esforço possível para entrar pela porta estreita, porque eu lhes digo: muitos tentarão entrar, e não conseguirão. Uma vez que o dono da casa se levantar e fechar a porta, vocês vão ficar do lado de fora. E começarão a bater na porta, dizendo: ‘Senhor, abre a porta para nós!’ E ele responderá: ‘Não sei de onde são vocês’. E vocês começarão a dizer: ‘Nós comíamos e bebíamos diante de ti, e tu ensinavas em nossas praças!’ Mas ele responderá: ‘Não sei de onde são vocês. Afastem-se de mim, todos vocês que praticam injustiça!’ Então haverá aí choro e ranger de dentes, quando vocês virem Abraão, Isaac e Jacó junto com todos os profetas no Reino de Deus, e vocês jogados fora. Muita gente virá do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus. Vejam: há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos.»
Hebreus 12:18-19,22-29 e Lucas 13:22-30 - Próprio 16 depois de Pentecostes (ano C)
A Bíblia (Pastoral)
Minha avó de 88 anos carrega o que chamo de gene da melancolia portuguesa. Esse é um termo que eu inventei depois de perceber que é culturalmente português ter essa nostalgia e sensibilidade crescentes à medida que uma pessoa envelhece.
O fato é que, mais que isso, minha avó tem uma sensitividade espiritual que freqüentemente a leva ao choro por conta de fatos do dia-a-dia. Muitas veazes, ela não pode assistir aos noticiários, pois os dramas do mundo a fazem sofrer muito mais que o que ela pode suportar. E quando se trata de assuntos espirituais, pode ser ainda pior. Se ela olha um crucifixo, apenas a idéia de imaginar a dor de Cristo pendurado no madeiro já faz sua pressão subir e seus olhos se encherem de lágrimas.
Por anos, juntei-me ao grupo de parentes que zombavam dela por sua “infantilidade e ingenuidade”. Por anos, eu mesmo não pude chorar. De meados da minha adolescência até alguns anos atrás, prometi a mim mesmo que não choraria novamente. Todos aqueles que me causaram tanta dor não iriam ver minhas lágrimas nunca mais. E aí, comecei a chorar por dentro, até que Deus me resgatou e voltei à Igreja...
Esta semana, entendi a vovó. Há três dias, uma série de eventos na minha vida deram partida à uma sensibilidade extrema às dores dos seres humanos. Eu me peguei chorando sozinho porque um sacerdote que nunca conheci nesta vida morreu de câncer. Chorei ao saber de uma jovem em Curitiba (que nem é uma cidade tão violenta) que foi assassinada neste fim de semana. Ao ver os mendigos na rua, pedindo por comida, também chorei. Chorei porque um amigo foi expulso de casa. Chorei ao perceber que Cristo tomou toda essa dor naquela cruz. É tanta dor...
Deus está chorando também. Você não vê?
A cada treze minutos, um brasileiro é assassinado. R$ 200.000,00 por ano é a quantidade gasta pelo SUS tratando pessoas vitimadas por armas de fogo. Quando este ano terminar, 25 mil brasileiros terão morrido em acidentes de trânsito, muitos tão facilmente evitáveis! Em São Paulo, cerca de 60% dos assassinatos ocorrem por razões fúteis. Somente no Rio, a guerrilha urbana do tráfico mata oito vezes mais que conflitos na Palestina. 30% de todos os assassinos aqui são adolescentes.
Tem mais! No mundo inteiro, há uma arma de fogo para cada doze pessoas. Cada minuto, uma criança morre de AIDS. Oito milhões de crianças neste planeta morrem de fome a cada ano. Um milhão de pessoas em todo o mundo cometem suicídio no mesmo período. Para cada dois bebês que nascem no mundo, há um aborto... 126.000 abortos por dia, muitos por motivos estúpidos. Guerras, muitas em nome de Deus, levaram 185 milhões de pessoas apenas no século XX – uma em cada 22 mortes.
No nosso país, vimos um índio ser queimado por jovens ricos em Brasília. Um professor homossexual foi espancado grotescamente por uma gangue nazista em São Paulo, ao caminhar, sozinho, para casa. Há alguns dias, uma empregada doméstica foi atacada por adolescentes endinheirados, aqui mesmo no Rio. Uma freira americana, Ir. Dorothy Stang, morreu a tiros anos atrás, por ser uma ativista de direitos humanos na Amazônia.
Nós gastamos... recursos, comida, água... Vivemos como se nossos descendentes não precisassem deste mundo. Destruímos esse gigantesco Jardim do Édem chamado Terra. Gaia, este complexo orgânico composto por toda a criação de Deus, está muito doente. E nós nem nos importamos!
Nós não compartilhamos. Nem mesmo um abraço, às vezes! Vemos pessoas em necessidade todos os dias, mas nos acostumamos com a existência delas. Elas não nos incomodam mais.
Eu não queria ser Deus. É muita dor e muita destruição para alguém suportar.
Deus está chorando. Você não vê?
Devo confessar que uma das minhas maiores fraquezas é o ódio. Tendo a odiar aqueles que considero maus. Na minha caminhada cristã, tenho lutado contra esse sentimento recorrente de ódio que sinto ao ver algumas dessas ações (e muitas mais) que aqui citei.
Eu não posso ser Deus! Se fosse Deus, exterminaria a todos com minha varinha mágica. Eles não teriam uma segunda chance, nada! Libertaria o mundo do mal, de todos os modos possíveis.
Deus, entretanto, nos deu uma chance. Há uma porta estreita pela qual qualquer um pode entrar, como nos conta o Evangelho de hoje. Mas por que uma porta estreita? Nos tempos antigos, as cidades tinham muros, para se protegerem de eventuais invasores. Durante o dia, as grandes portas principais ficavam abertas; mas quando caia a noite, elas eram fechadas, e apenas as pequeninas portas laterais poderiam ser utilizadas como entrada, especialmente para mercadores e caravanas. Assim, se alguém estivesse planejando entrar na cidade, tal pessoa realmente precisaria encontrar tais passagens estreitas.
Não é muito agradável passar uma noite no deserto. As temperaturas podem baixar bastante e o vento é violento em tais lugares. Mas se alguém não pudesse encontrar a porta estreita, aquele seria seu destino. Nenhum guarda deixaria alguém entrar pelas portas principais durante a noite.
É interessante notar que a lição de Hebreus nos conta de uma Jerusalém Celestial, a cidade do Deus Vivo, onde Jesus celebra a festa com os santos e os anjos. A imagem dos Céus como uma cidade também foi explorada por vários teólogos cristãos. Santo Agostinho de Hipona escreveu todo um livro, coincidentemente chamado Cidade de Deus, no século V. Nessa época, Roma tinha sido saqueada pelos visigodos, e muitos de seus cidadãos estavam desesperados, pois acreditavam que, após a adoção do Cristianismo como religião oficial, Roma triunfaria como um novo Israel.
Santo Agostinho, porém, argumentou que o Cristianismo deve se preocupar com a mística Nova Jerusalém apenas. A religião não deveria andar de mãos dadas com a política organizada. De fato, ambos estariam sempre em conflito: a Cidade de Deus contra a Cidade dos Homens. Aqueles que se comprometiam com os valores cristãos, tais como paz, justiça e reconciliação, compunham a Cidade de Deus. Os que se afastaram deles eram a Cidade dos Homens. Ao fim, a Cidade de Deus triunfaria.
Jesus quer que todos entrem na Cidade de Deus. É é ousadia minha falar isso aqui nesta comunidade, chamada Cidade de Deus, porém, na qual tantos ainda estão na Cidade dos Homens. Mas como diz nosso texto, tudo o que é instável será removido e apenas o inabalável permanecerá.
É meu desejo profundo que todos tenham uma chance de achar a porta estreita. Espero que as punições que as pessoas infligem nelas mesmas um dia as convençam de seus pecados e as façam arrepender-se de seus caminhos injustos.
Deus chora quando cada um desses seus amados filhos não acha a porta estreita. Você não vê?
A porta é estreita não porque Deus não quer que achemos o caminho para ela. Ela é estreita porque a Cidade de Deus é tão preciosa que não pode ser invadida por aqueles que não se comprometem com o Reino de Cristo. Infelizmente, muitos dizem ser Seus discípulos, mas falham na hora de pôr em prática Sua mensagem. Eles alegam ter comido com Ele, e tê-Lo pregando em suas praças, mas ainda não acharam o caminho para a porta estreita.
O Arcebispo Tutu, Bispo Emérito da Cidade do Cabo, uma vez disse que “não tomar uma posição contra a injustiça é, na prática, tomar uma posição a favor da injustiça”. Às vezes nos sentimos seguros e confortáveis em nossas igrejas. Não nos importamos com a dor e sofrimento que o mundo ao redor de nós sente. O que não sabemos é que, ao fazermos isso, perdemos a porta estreita.
Estamos tão perto da Cidade de Deus! A leitura da epístola diz isso... Estamos na porta dela, e somos convidados para entrar. Tudo o que precisamos fazer é tomar uma decisão. Uma decisão contra o preconceito, a opressão e a violência. Uma decisão contra a incredulidade e a falta de esperança. Uma decisão contra a fome, a pobreza e a miséria. Uma decisão contra tudo o que é contrário a Cristo.
Nosso Senhor Jesus Cristo quer que todos, do oriente, ocidente, norte e sul, venham e celebrem a festa. Como Seus seguidores, é nosso dever alcançar a maioria de pessoas possível e mostrar esse caminho de luz para eles.
Ontem, acordei com uma música na minha cabeça. Como +Tutu, é uma música da África do Sul e é cantada em zulu, uma das muitas línguas daquele país. É composta de uma frase somente:
Siyahamba ekukhanyen' kwenkhos' (em português: “Caminhando pela luz de Deus”). Na semana passada, vi até nosso primaz dançando ao som dela em um filme na Internet, o que me fez lembrar de um coral do qual fiz parte anos atrás. Siyahamba era um dos meus hinos preferidos. Ele se encaixa tão bem nesta comunidade, porque é impossível ouvi-lo sem requebrar o corpo.
Espero, de todo o meu coração, que todos caminhemos cada vez mais na luz de Deus, levando conosco a maior quantidade de pessoas que possamos encontrar, rumo à Cidade Celestial.
A Nova Jerusalém está logo ali. Você não vê? Tudo o que precisamos fazer é tomar uma decisão.
E aí, Deus sorrirá. Para sempre. Você pode ver?
Sermão compartilhado na Paróquia Cristo Rei, da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, em 26/08/2007.
-
posted on 20/08/07 at 01:39:02
Portanto, estamos rodeados dessa grande nuvem de testemunhas. Deixemos de lado tudo o que nos atrapalha e o pecado que se agarra em nós. Corramos com perseverança na corrida, mantendo os olhos fixos em Jesus, autor e consumador da fé. Em troca da alegria que lhe era proposta, ele se submeteu à cruz, desprezando a vergonha, e se assentou à direita do trono de Deus. Para que vocês não se cansem e não percam o ânimo, pensem atentamente em Jesus, que suportou contra si tão grande hostilidade por parte dos pecadores.
Vocês ainda não resistiram até o derramamento do sangue na luta contra o pecado, e já se esqueceram da exortação que lhes foi dirigida como a filhos: «Meu filho, não despreze a correção do Senhor e não perca o ânimo quando for repreendido por ele; 6 pois o Senhor corrige a quem ele ama e castiga a quem aceita como filho.» Em vista da educação é que vocês sofrem. Deus trata-os como filhos. E qual é o filho que não é corrigido pelo pai? Na hora, qualquer correção parece não ser motivo de alegria, mas de tristeza; porém, mais tarde, ela produz um fruto de paz e de justiça naqueles que foram corrigidos.
Por isso, levantem as mãos cansadas e fortaleçam os joelhos enfraquecidos. Endireitem os caminhos por onde terão que passar, a fim de que o aleijado não manque, mas seja curado.
Procurem estar em paz com todos. Progridam na santidade, porque sem ela ninguém verá o Senhor.
«Eu vim para lançar fogo sobre a terra: e como gostaria que já estivesse aceso! Devo ser batizado com um batismo, e como estou ansioso até que isso se cumpra! Vocês pensam que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu lhes digo, vim trazer divisão. Pois, daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas, e duas contra três. Ficarão divididos: o pai contra o filho, e o filho contra o pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora, e a nora contra a sogra.»
Jesus também dizia às multidões: «Quando vocês vêem uma nuvem vinda do ocidente, vocês logo dizem que vem chuva; e assim acontece. Quando vocês sentem soprar o vento do sul, vocês dizem que vai fazer calor; e assim acontece. Hipócritas! Vocês sabem interpretar o aspecto da terra e do céu. Como é que vocês não sabem interpretar o tempo presente?
Hebreus 12:1-7,11-14 e Lucas 12:49-56 - Próprio 15 depois de Pentecostes (ano C)
A Bíblia (Pastoral)
Essa é, seguramente, uma das passagens aparentemente mais contraditórias de Jesus. Sempre que pensamos no ministério de Cristo entre nós, vem à nossa mente a idéia de paz, tranqüilidade e reconciliação. Como pode, então, o próprio Cristo anunciar a divisão? Junta-se a ela nossa leitura da Epístola aos Hebreus, a qual fala de correção divina, e aí alguém poderia pensar: “mas que Deus é esse, tão diferente dos outros domingos?”
A tônica da mensagem, entretanto, está na dialética entre presente e futuro – entre coisas de agora (e de um futuro imediato) e coisas do porvir, e em como devemos reagir perante os desafios que surgem à nossa frente.
De fato, Jesus sabia muito bem o que viria a acontecer após seu batismo na cruz. Praticamente todos os seus discípulos foram martirizados pregando o Evangelho. Começava ali um rastro de sangue no Cristianismo que vai até os dias de hoje. A mensagem de Cristo era tão radical que não havia como se harmonizar com as estruturas de um mundo cruel e assassino. Aqueles que a pregavam muitas vezes se viam perseguidos, humilhados e até mesmo torturados e mortos. Essas são marcas do tempo presente.
No tempo presente, todos nós temos pequenas escolhas. Algumas delas, contudo, marcam nossa postura de obediência ou desobediência perante Deus. Eventualmente, sofremos na pele a conseqüência de tal desobediência, não como uma perseguição cruel de um deus egoísta, mas como uma admoestação para que mais e mais sejamos como Ele.
Essas escolhas, no tempo presente, causam divisões, em alguns casos, dentro de uma mesma família. E infelizmente, a história está recheada de casos em que parentes próximos foram os responsáveis por denunciar às autoridades um missionário cristão. Tais fatos perduram até hoje.
A família de Cristo também vive uma divisão no tempo presente. Hoje, vemos um grupo, formado por aqueles que ainda pregam paradigmas antigos, muitas vezes revisitados com roupagem contemporânea. Vêem as Escrituras Sagradas de uma forma fundamentalista e literal. Defendem sua pureza doutrinária e a sua “sã” doutrina contra as heresias de outras igrejas. Usam muitas vezes da máquina política para conseguir poder, dinheiro e até mesmo relaxamento de punições civis. Pregam um Evangelho de exclusão, no qual apenas alguns, muitas vezes vivendo de aparências, têm acesso à estrutura eclesiástica, enquanto as minorias étnicas, sociais, sexuais e econômicas são colocadas de lado. Tal grupo via de regra entra em choque com aqueles que têm tentado justiça e reconciliação; que têm buscado valorizar a experiência do sagrado na vida de cada um e ouvir as coisas novas que o Espírito Santo está dizendo à Igreja. Tal grupo não tem a pretensão de se achar o dono da verdade. Também não vê a Bíblia como um código fechado e desconectado da vida dos seres humanos. Entende que o Evangelho é a toda criatura e que a paz de Cristo é o árbitro no coração de cada um que o aceita.
Jesus previu tais divisões. Ele sabia que elas surgiriam – até mesmo dentro da Igreja. Tais divisões do tempo presente, porém, não devem ser motivo de medo ou desespero. Elas prenunciam, na verdade, um tempo futuro muito melhor para todos nós.
No tempo futuro, não haverá choro, medo ou perseguição, pois Cristo será o guia da humanidade. Haverá somente paz e justiça.
No tempo futuro, o que para nós hoje aparenta ser motivo de tristezas, será motivo de alegrias, pois Deus nos trata como mãe e pai, admoestando-nos agora para que não soframos futuramente.
No tempo futuro, os caminhos se endireitarão, os doentes serão curados e os reinos deste mundo serão o Reino de Deus.
No tempo futuro, toda língua confessará e todo joelho se dobrará perante Jesus Cristo, nosso Senhor.
E aí o autor da Epístola dos Hebreus fala dessa grande nuvem de testemunhas, que são os santos da Igreja triunfante, os anjos e criaturas celestiais que estão junto a nós, torcendo nesta corrida em direção a Deus. Essa imagem foi muito explorada pela teologia cristã oriental, num conceito chamado em grego de teose, ou deificação. É um processo em que nós nos tornamos como Deus, imitando Seu exemplo e tentando ser como Ele.
Santo Atanásio sintetiza esse conceito em duas frases que cito a seguir: "Deus foi feito homem para que nós pudéssemos ser como Deus." e também: "o Verbo se fez carne para que através de seu corpo possamos ser deificados, e tenhamos vida eterna". Santo Irineu também fala sobre a teose. Ele diz que "Deus se tornou o filho do homem para que nós, homens, nos tornemos filhos de Deus".
É o reconhecimento de que Deus se doou à humanidade, encarnou como ser humano e nos redimiu de nossos pecados para que nós pudéssemos, através do corpo dEle, chegarmos à deificação.

Fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Toda a criação é obra de Deus. Se somos obra de Deus, há graça em nós. É bem verdade que, por causa do pecado, o brilho divino original foi coberto por camadas de sujeira. E Deus, de forma a restaurar a glória de sua criação, nos dá a oportunidade, através de sua encarnação, morte e ressureição, de nos livrarmos dessas camadas de pecado que nos afastam d'Ele.
E aí, deificação interage com o conceito de santificação e também com o conceito de unidade da Igreja. Em Cristo, abre-se o caminho para que possamos ser um com Deus novamente, e um com nossas irmãs e nossos irmãos. Não significa que seremos "deuses" de um panteão celestial - e sim de que, em um dado momento, estaremos em tal harmonia com Deus que seremos um com Ele. Teremos sido absorvidos pela maravilhosa graça de Deus. A conversão é um processo contínuo, em que gradualmente vamos nos tornando como Deus, até o ponto em que todos seremos um com Deus. Infelizmente, isso não ocorre aqui neste mundo, mas é nosso dever trabalharmos para que possamos, nesta vida, chegar o mais próximo possível de tal ideal, juntando-nos a essa nuvem de testemunhas celestiais.
A humanidade cobre-se de pecado quando quer ser "Deus" por conta própria (comendo do fruto da árvore do bem e do mal, segundo o mito do Gênesis). A humanidade redime-se do pecado quando aceita a reconciliação do mundo em Cristo, e toma o caminho de deificação através da imitação de Cristo. O caminho é duro, e haverá dor e perseguição. Esses são sinais do tempo presente. Entretanto, temos a certeza de que, ao final, venceremos essa corrida com os olhos firmes em Jesus, autor e consumador da fé. A vitória em Cristo é sinal do tempo futuro, o qual podemos experimentar, mesmo hoje.
Sempre fico emocionado ao pensar na possibilidade da vida eterna. Tendo vivido boa parte da minha adolescência numa tradição conservadora, lidei anos a fio com o medo do inferno, achando que Deus tinha desistido de mim, ou até mesmo me predestinado para a perdição. E ao pensar na certeza de que, ao fim desta corrida, serei vencedor, chego a ficar emocionado. Nisto, me vêm à mente dois hinos que sempre me tocaram muito. Um deles, 238 do Hinário Episcopal (melodia
King's Lynn), o qual fala, no final que “não tarda e o mundo passará, tão breve como a flor; mas os fiéis sempre estarão com Cristo, o Salvador”. E o outro é o famoso “Graça Sublime” (
Amazing Grace), que termina com: “dez mil anos Contigo habitar,com o sol a brilhar; não teremos menos dias a Jesus louvar, que quando fomos lá morar”.
Portanto, irmãos, mantenhamo-nos no rumo, fortalecendo nossos irmãos e mirando no objetivo máximo que é Cristo, para que possamos entender os sinais do tempo presente e nos alegrarmos na esperança de um tempo futuro mais fraterno, solidário e divino.
Sermão compartilhado na Paróquia Cristo Rei, da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, em 09/08/2007.
-
posted on 05/08/07 at 03:37:43
Eu, Coélet, fui rei de Israel em Jerusalém. Eu resolvi pesquisar e investigar com sabedoria tudo o que acontece debaixo do céu. Essa é uma tarefa penosa que Deus entregou aos homens, para com ela ficarem ocupados. Então examinei as coisas que se fazem debaixo do sol, e cheguei à conclusão de que tudo é fugaz, uma corrida atrás do vento.
Então pensei: «Vamos! Vou fazer você experimentar a alegria e conhecer o prazer!» Mas concluí que também isso é fugaz. Do riso, eu disse: «Tolice!» E da alegria: «Para que serve?»
Então decidi entregar-me à bebida, nessa minha busca da sabedoria, e entregar-me à insensatez, para descobrir o que convém ao homem fazer debaixo do céu, no curto tempo da vida.
Realizei grandes obras: construí palácios para mim, plantei vinhas, fiz jardins e pomares com todo tipo de árvores, e construí reservatórios de água para regar as árvores do pomar. Comprei escravos e escravas, e tive muitos criados nascidos na minha casa. Possuí muitos rebanhos de vacas e ovelhas, mais do que todos os que reinaram em Jerusalém antes de mim.
Então examinei todas as obras que havia feito e o trabalho que elas tinham custado para mim. E concluí que tudo é fugaz e uma corrida atrás do vento, e que não há nada de permanente debaixo do sol.
Detesto todo o trabalho com que me afadigo debaixo do sol, porque devo deixar tudo para o homem que virá depois de mim. E quem sabe se ele será sábio ou insensato? De qualquer modo, ele será dono de tudo o que eu fiz debaixo do sol com a minha fadiga e sabedoria. Também isso é fugaz. Então fiquei com o coração desesperado por causa de todo o trabalho com que me afadiguei debaixo do sol. De fato, há quem trabalhe com sabedoria, conhecimento e sucesso. E depois tem que deixar seus bens para outro que com nada se afadigou. Também isso é coisa fugaz e grande mal.
Então, que proveito resta para o homem de todo o trabalho e esforço mental com que se afadigou debaixo do sol? Sim, os seus dias todos são dolorosos, a sua tarefa é penosa, e até de noite ele não pode repousar. Também isso é fugaz!
Façam morrer aquilo que em vocês pertence à terra: fornicação, impureza, paixão, desejos maus e a cobiça de possuir, que é uma idolatria. Isso é o que atrai a ira de Deus sobre os rebeldes. Outrora, também vocês eram assim, quando viviam entre eles. Agora, porém, abandonem tudo isso: ira, raiva, maldade, maledicência e palavras obscenas, que saem da boca de vocês. Não mintam uns aos outros. De fato, vocês foram despojados do homem velho e de suas ações, e se revestiram do homem novo que, através do conhecimento, vai se renovando à imagem do seu Criador. E aí já não há grego nem judeu, circunciso ou incircunciso, estrangeiro ou bárbaro, escravo ou livre, mas apenas Cristo, que é tudo em todos.
Como escolhidos de Deus, santos e amados, vistam-se de sentimentos de compaixão, bondade, humildade, mansidão, paciência. Suportem-se uns aos outros e se perdoem mutuamente, sempre que tiverem queixa contra alguém. Cada um perdoe o outro, do mesmo modo que o Senhor perdoou vocês. E acima de tudo, vistam-se com o amor, que é o laço da perfeição. Que a paz de Cristo reine no coração de vocês. Para essa paz vocês foram chamados, como membros de um mesmo corpo. Sejam também agradecidos. Que a palavra de Cristo permaneça em vocês com toda a sua riqueza, de modo que possam instruir-se e aconselhar-se mutuamente com toda a sabedoria. Inspirados pela graça, cantem a Deus, de todo o coração, salmos, hinos e cânticos espirituais. E tudo o que vocês fizerem através de palavras ou ações, o façam em nome do Senhor Jesus, dando graças a Deus Pai por meio dele.
Do meio da multidão, alguém disse a Jesus: «Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo.» Jesus respondeu: «Homem, quem foi que me encarregou de julgar ou dividir os bens entre vocês?» Depois Jesus falou a todos: «Atenção! Tenham cuidado com qualquer tipo de ganância. Porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a sua vida não depende de seus bens.» E contou-lhes uma parábola: «A terra de um homem rico deu uma grande colheita. E o homem pensou: ‘O que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita’. Então resolveu: ‘Já sei o que fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir outros maiores; e neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: meu caro, você possui um bom estoque, uma reserva para muitos anos; descanse, coma e beba, alegre-se!’ Mas Deus lhe disse: ‘Louco! Nesta mesma noite você vai ter que devolver a sua vida. E as coisas que você preparou, para quem vão ficar?’ Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico para Deus.»
Eclesiastes 1:12-14,2:1-7,11,18-23, Colossenses 3:5-17 e Lucas 12:13-21 - Próprio 13 depois de Pentecostes (ano C)
A Bíblia (Pastoral)
Reza a lenda que havia na cidade de Delfos, na Grécia antiga, um oráculo. Tal oráculo funcionava no Templo de Apolo, e ali havia uma sacerdotisa, intitulada sibila. As sibilas, conta a história, recebiam comunicados dos deuses, e profetizavam sobre o futuro daqueles que se dispunham a visitar o templo. Certo dia, Creso, rei de Lídia, e considerado o homem mais rico do mundo, foi ali saber se deveria cruzar o rio e atacar os persas, que em sua expansão, já estavam atingindo a Ásia Menor. A sacerdotisa respondeu: “se cruzares o rio, destruirás um grande império”. Crendo que destruiria o Império Persa, Creso se lançou contra eles. Na verdade, o grande império a ser destruido era o seu próprio e em pouco tempo, todas as suas riquezas estavam nas mãos de um povo estrangeiro.
Salomão também foi um rei muito rico. Colecionou riquezas de toda sorte: palácios, fazendas, mulheres... e também sabedoria: muita sabedoria. Considerava-se o Coélet: orador e filósofo. Salomão viveu intensamente, como costumam dizer os jovens hoje em dia: muito ganhou, muito desfrutou e muito “viveu a vida”. Comeu bem, embriagou-se, fez todas as loucuras possíveis e que seu poder e dinheiro permitiam comprar. Ele acumulava bens e conquistas para o futuro. Futuro que nos intriga e que nos amedronta, por ser um grande segredo do qual não temos pista.
O segredo do futuro sempre revirou a cabeça das mulheres e dos homens. Ainda hoje, se abrirmos uma página de jornal encontraremos diversos “oráculos” e diversas “pitonisas”: cartas de tarô, búzios, adivinhações de toda sorte...
Há os que confiam na ciência. Lembro-me de um rapaz que trabalhou comigo. Ele sempre apostava na loteria. Para tal, se valia de estatísticas dos números e combinações mais sorteados. Passava horas a fio fazendo cálculos para saber quais números seriam os mais prováveis. Para ele, o segredo do futuro é o dinheiro.
Para alguns, é um casamento. Conheço uma senhora que sonha diuturnamente com um casamento abastado para sua filha. Toda vez que a menina sai com um rapaz, ela já faz mil planos de que ele é bem sucedido e os netos serão crianças educadas em colégios de nome. Com razão, ela acaba por afastar possíveis pretendentes, tamanha é sua empolgação com o possível romance.
Outros, assim como Salomão, procuram aproveitar o hoje “ao máximo”. Eles alegam que é preciso viver “intensamente”. Saem todos os dias, disputam quem corre mais rápido, quem bebe mais sem cair no chão, quem se expõe ao ridículo, quem se deita com mais mulheres ou homens, quem consegue dançar a noite inteira sem se cansar... É preciso tentar tudo, mesmo que esse tudo muitas vezes contradiga os princípios nos quais foram criados. No futuro – eles dizem – irão se comportar bem, e aí, buscarão viver uma vida “mais regrada”. E aí, poderão dizer que fizeram loucuras em sua juventude.
O autor da Epístola aos Colossenses, segundo a tradição São Paulo, fala muito bem de todas essas atitudes. Já naquela época, as pessoas tinham tais ânsias e preocupações. Uns se entregavam à má conduta; outros, à avareza; outros ainda, à cobiça – tudo para garantir para si um melhor quinhão neste mundo “abaixo do sol”.

“Abaixo do sol” é uma expressão bastante utilizada pelos antigos hebreus para se referir a este mundo em que vivemos. Eles criam que a terra era uma superfície circular, abaixo da qual encontrava-se o abismo. O sol cobria a Terra, escondendo-se ao final do dia, para dar lugar à lua. Ambos formavam uma cúpula sobre nós. Acima daquilo encontrava-se a misteriosa presença de Deus.
Salomão, tardiamente, percebeu que, neste mundo “abaixo do sol”, tudo era fugaz... Pois nossa passagem por aqui é apenas temporária, e um dia, daqui seremos retirados, conforme a vontade de Deus, para um admirável mundo novo “acima do sol”.
O segredo do futuro não está abaixo do sol. Está acima dele. Está no mistério de Deus, que nos ilumina, ainda que parcialmente, tal qual o sol cobre os nossos dias e dá vida à criação de Deus. E acima do sol, não há grego ou judeu, incircunciso ou circunciso, escravo ou livre... Não há divisões, nem há maiores ou menores. Não há ricos e pobres, nem modernos ou antiquados. Todos são iguais. Todos são um.
Portanto, o segredo do futuro não está em ajuntar bens, pois a ganância é previdência sem amor. Tampouco está em receber títulos pomposos, pois a gana pela fama é sucesso sem amor. Nem na cobiça pelo que é do outro. Isso é ambição sem amor. Também não está nas aventuras da vida. A embriaguez é um teste aos seus limites, sem amor-próprio. A adivinhação é curiosidade sem amor. A fornicação é sexo sem amor. Desejos maus são a falta de auto-controle, atrelada à escassez de amor. Todas essas coisas, claro, podem dar a alguém o reconhecimento aos olhos dos homens, mas não tornam ninguém rico aos olhos de Deus. E isto, Jesus nos alerta no evangelho de hoje.
O grupo português Madredeus, provavelmente conhecido de alguns aqui, foi em toda a minha vida uma influência musical recorrente. Eles também cantaram sobre o segredo do futuro. E faço dessa canção a minha mensagem hoje:
O segredo do futuro,
É o amor.
Um amor sublime e puro,
O belo amor.
Só o amor
Resolve tudo numa esperança maior.
Sem amor,
O que foi grande é já menor.
Sem amor
O que era bom ficou pior
Só o amor
Resolve tudo e traz a esperança até nós
Eu vejo o tempo a passar muito depressa
E ao longe essa esperança
Que sinto apagar
Chamou por mim
Para eu a chamar
A ideia de amor
Aconteceu
Na estrada da Terra até ao Céu.
A ideia de amor não se perdeu,
E devolveu tudo o que se deu.
A chave do futuro é dar de novo amor
A todo o “outro”...
O “outro” que és tu, e ele, e eu,
A sós neste mundo.
O segredo do futuro
Madredeus
O segredo do futuro é o amor. Um amor maior que tudo. Que em tudo que fizermos, estejamos vestidos com o amor, que é o laço da perfeição. Amor a Deus, e também ao “outro”, que são vocês, elas, eles e eu, a sós neste mundo debaixo do sol.
Que a palavra de Cristo permaneça em nós, e que tudo o que fizermos, seja através de palavras ou ações, seja feito em nome do Senhor Jesus, dando graças a Deus – mãe e pai – por meio dEle, vivendo dia após dia nossa experiência contínua com o mundo que está acima do sol.
Sermão compartilhado na Paróquia Cristo Rei, da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, em 05/08/2007.