Agradeço àquele que me deu força, a Jesus Cristo nosso Senhor, que me considerou digno de confiança, tomando-me para o seu serviço, apesar de eu ter sido um blasfemo, perseguidor e insolente. Mas eu obtive misericórdia porque eu agia sem saber, longe da fé. Sim, ele me concedeu com maior abundância a sua graça, junto com a fé e o amor que estão em Jesus Cristo.
Esta palavra é segura e digna de ser acolhida por todos: Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro. Mas exatamente por causa disto eu obtive misericórdia: Jesus Cristo quis demonstrar toda a sua generosidade primeiramente em mim, como exemplo para os que depois iriam acreditar nele, a fim de terem a vida eterna.
Ao rei dos séculos, ao Deus incorruptível, invisível e único, honra e glória para sempre. Amém!
Todos os cobradores de impostos e pecadores se aproximavam de Jesus para o escutar. Mas os fariseus e os doutores da Lei criticavam a Jesus, dizendo: «Esse homem acolhe pecadores, e come com eles!»
Então Jesus contou-lhes esta parábola: «Se um de vocês tem cem ovelhas e perde uma, será que não deixa as noventa e nove no campo para ir atrás da ovelha que se perdeu, até encontrá-la? E quando a encontra, com muita alegria a coloca nos ombros. Chegando em casa, reúne amigos e vizinhos, para dizer: ‘Alegrem-se comigo! Eu encontrei a minha ovelha que estava perdida’. E eu lhes declaro: assim, haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão.»
«Se uma mulher tem dez moedas de prata e perde uma, será que não acende uma lâmpada, varre a casa, e procura cuidadosamente, até encontrar a moeda? Quando a encontra, reúne amigas e vizinhas, para dizer: ‘Alegrem-se comigo! Eu encontrei a moeda que tinha perdido’. E eu lhes declaro: os anjos de Deus sentem a mesma alegria por um só pecador que se converte.»
I Timóteo 1:12-17 e Lucas 15:1-10 - Próprio 19 depois de Pentecostes (ano C)
A Bíblia (Pastoral)

Há uma série popular de televisão, chamada Lost (perdido, em inglês). Recentemente, ela se tornou bastante popular no Brasil, pois o ator Rodrigo Santoro (que também atuou como Xerxes no filme 300) teve um papel secundário em alguns episódios. A série mostra a vida de sobreviventes de um acidente de avião, numa ilha tropical misteriosa, depois do jato ter caído em algum lugar do pacífico, entre a Austrália e os Estados Unidos.
Mas mesmo se vocês não assistiram a essa série (e imagino que neste caso vocês devam estar vivendo numa ilha deserta), provavelmente vocês se lembram de um desenho animado muito famoso nos anos oitenta: Caverna do Dragão. A trama por detrás desse desenho é sobre um grupo de crianças que são jogadas num reino mágico ao entrar numa montanha-russa de um parque de diversões. Elas querem voltar para casa, mas sempre há alguma coisa que as impede de fazê-lo (em 90% das vezes, o culpado é um unicórnio idiota).
Estar perdido, inevitavelmente, não é um sentimento desconhecido para as pessoas. Alguns devem ter se perdido fisicamente, imagino. Conheço uma paroquiana cujo filho se perdeu três vezes dentro de um supermercado, o que agora a força a mantê-lo preso a ela por uma corda, quando saem para fazer compras. Outras pessoas, mesmo já sendo adultas, ainda se perdem. Eu sou uma delas. Eu posso me perder facilmente na direção, e imagino que isso contribui para meu total desinteresse por dirigir carros.
Estar perdido não é uma boa coisa. Não mesmo. Quando alguém se acha só, ela(e) pode achar que não há forma de sair dali. A sociedade também contribui para isso. Já perceberam o impacto que palavras como "perdedor", "perdido", "caso perdido" (e outros derivados do verbo "perder") têm? Posso imaginar, então, os fariseus e doutores da lei murmurando sobre Jesus, o homem que ousava ter um relacionamento pessoal com aqueles pecadores e coletores de impostos, os quais eram, para eles, "casos perdidos".
Em resposta a isso, Jesus deixou três parábolas sobre estar perdido (duas delas no Evangelho de hoje). Uma é sobre ovelhas perdidas. É interessante notar que tais animais podem se perder muito facilmente. As ovelhas tendem a formar grupos para ajuda mútua e proteção. Entretanto, como são animais sensíveis, qualquer coisa pode distrair esses bichinhos felpudos e fazer com que uma (ou até um grupo) se separe do rebanho. Nossas igrejas têm a tendência de ser como tais rebanhos, e não é uma coincidência que as Escrituras e a Igreja usem essa metáfora freqüentemente. As pessoas podem formar grupos de adoração e louvor muito facilmente. Entretanto, é igualmente fácil para elas se distrair ou ofender com os outros, e deixar sua comunidade de fé. Em alguns casos, o pecado (ou até mesmo um comportamento não-pecaminoso, mas que é visto como pecado por muitos), pode fazer alguém se sentir indigno de ser filha(o) de Deus, forçando tal pessoa a fugir da igreja dela. As "ovelhas" remanescentes provavelmente dirão que era um caso perdido mesmo. Aquela pessoa está perdida.
A outra parábola é sobre dinheiro. Uma mulher perde uma de suas dracmas. A dracma era uma moeda antiga de prata, encontrada em muitas cidades-estado gregas e nos reinos que as sucederam, bem como nos reinos asiáticos do período helenístico. Pode ser comparada, mais ou menos, a um pagamento diário médio. No Brasil, isso seria por volta de R$ 40,00, e vou deixar para vocês imaginarem como seria uma nota de quarenta reais. O fato é que ela perdeu uma de tais notas, mas ainda tinha R$ 360,00 sobrando. Era tarde (e provavelmente escuro). A maioria das pessoas (eu inclusive) tentaria achá-la num primeiro momento, mas em caso de insucesso, ficariam ainda satisfeitas por ter a maioria do dinheiro, esperando pelo dia seguinte (e pela luz do sol) para procurar novamente. Estava perdido mesmo!
O que se esquece é que a palavra "perdido" pressupõe dois fatos: que o objeto (ou pessoa) em algum momento não estava perdido, e que ele ainda pode ser encontrado.
É aí que reside a diferença entre Deus e os homens. Deus, aqui representado tanto como um pastor de ovelhas quanto como uma mulher dona-de-casa, não desiste de buscar o que estava perdido. Ela(e) é o pai do rebanho de ovelhas distraídas, e também a mãe do tesouro de moedas de prata que somos nós. E todos nós, seres humanos, fomos destinados a pertencer a Ela(e), desde o início dos tempos. É verdade que o pecado, infelizmente, nos fez "perder" o caminho. Minha esperança, contudo, é saber que não há ninguém que é perdido, mas sim que está perdido. E Deus continua buscando incessantemente por essas pessoas. Nossa postura, como membros do Corpo de Cristo, é entender que todos somos suscetíveis a esse estado de perda, e nesse caminho contínuo de conversão, é bem verdade que provavelmente já nos perdemos (ou tivemos vontade). Jesus, como nos diz a leitura de I Timóteo, veio a este mundo para salvar os pecadores, a fim de que tenham a vida eterna. E a Igreja deve estar de portas abertas, ousando imitar o exemplo de seu mestre, o qual se relacionava com os tidos como pecadores, apesar dos olhares condenatórios dos fariseus que ainda insistem em povoar nossas comunidades. Como cristãos, temos de aprender a enxergar os outros com o olhar misericordioso de Deus, para quem nada é eternamente perdido.
Que a Igreja de Cristo, e em especial esta família de fé, possa entender que somos um lugar de transformação e regeneração dos doentes e dos feridos, e que tenhamos coragem de assumir o exemplo de Cristo, não desistindo nunca, até mesmo daqueles que são tidos como "casos perdidos" pela sociedade.
Sermão compartilhado na Paróquia Cristo Rei, da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, em 16/09/2007.
A soberba é odiosa para o Senhor e para os homens, e os dois abominam a injustiça. O poder passa de uma nação para outra por causa da injustiça, da violência e das riquezas. Por que se orgulha quem é pó e cinza, se quando vivo já tem podridão nos intestinos? Uma longa doença desafia o médico, e quem hoje é rei, amanhã morrerá. Quando o homem morre, recebe de herança insetos, feras e vermes. A essência do orgulho humano é afastar-se do Senhor e manter o coração longe de quem o criou. O pecado é o princípio do orgulho. Quem se entrega a ele espalha abominação. Por isso, o Senhor pune a pessoa com castigos incríveis, e a destrói completamente. O Senhor derruba o trono dos poderosos e faz os humilhados assentar-se no lugar deles. O Senhor arranca a raiz das nações, e no lugar delas planta os oprimidos. O Senhor destrói o território das nações e o arrasa até os alicerces. Ele arranca as nações e as aniquila, e faz desaparecer da terra a lembrança delas. O orgulho não foi feito para o homem, nem a ira violenta para os nascidos de mulher.
Perseverem no amor fraterno. Não se esqueçam da hospitalidade, pois algumas pessoas, graças a ela, sem saber acolheram anjos. Lembrem-se dos presos, como se vocês estivessem na prisão com eles. Lembrem-se dos que são torturados, pois vocês também têm um corpo.
Que todos respeitem o matrimônio e não desonrem o leito nupcial, pois Deus julgará os libertinos e adúlteros. Que a conduta de vocês não seja inspirada pelo amor ao dinheiro. Cada um fique satisfeito com o que tem, pois Deus disse: «Eu nunca deixarei você, nunca o abandonarei.» Assim, podemos dizer com ânimo: «O Senhor está comigo, eu não temo. O que é que me poderá fazer um homem?» Lembrem-se dos dirigentes, que ensinaram a vocês a Palavra de Deus. Imitem a fé que eles tinham, tendo presente como eles morreram.
Jesus Cristo é o mesmo, ontem e hoje, e será sempre o mesmo.
Num dia de sábado aconteceu que Jesus foi comer em casa de um dos chefes dos fariseus, que o observavam.
Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então contou a eles uma parábola: «Se alguém convida você para uma festa de casamento, não ocupe o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que você; e o dono da casa, que convidou os dois, venha dizer a você: ‘Dê o lugar para ele’. Então você ficará envergonhado e irá ocupar o último lugar. Pelo contrário, quando você for convidado, vá sentar-se no último lugar. Assim, quando chegar quem o convidou, ele dirá a você: ‘Amigo, venha mais para cima’. E isso vai ser uma honra para você na presença de todos os convidados. De fato, quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado.»
Jesus disse também ao fariseu que o tinha convidado: «Quando você der um almoço ou jantar, não convide amigos, nem irmãos, nem parentes, nem vizinhos ricos. Porque esses irão, em troca, convidar você. E isso será para você recompensa. Pelo contrário, quando você der uma festa, convide pobres, aleijados, mancos e cegos. Então você será feliz! Porque eles não lhe podem retribuir. E você receberá a recompensa na ressurreição dos justos.»
Sirácida 10:7-18, Hebreus 13:1-8 e Lucas 14:1,7-14 - Próprio 17 depois de Pentecostes (ano C)
A Bíblia (Pastoral)
O tempo passa muito rápido, e logo estarei com vinte e seis anos (já não é muito?). Entretanto, Deus me abençoou imensamente e não acredito que eu pareça tão velho (ó céus)! Bem, mesmo parecendo ser uma piada, algumas pessoas ainda acreditam que eu tenho apenas dezoito anos, e isso tem sido muito comum na minha vida. Sempre pareci mais jovem (e espero ainda parecer) que o que eu era.
O Evangelho de hoje fala de festas: muitas delas! Eu amo festas e sempre amei dançar! Quem não ama? E quando eu estava para fazer dezoito anos, ficava ansioso para poder ir às baladas que aconteciam nas boates mais conhecidas do Rio. Era uma época de redescoberta na minha vida (infelizmente, longe de Deus) e as badalações eram parte disso, especialmente para mim que vim de uma tradição que considerava tais eventos inerentemente pecaminosos. O problema é que eu parecia mais jovem! Nunca que eu convenceria os funcionários dos nightclubs que tinha idade para entrar, enquanto amigas e amigos, que pareciam mais velhos, passavam facilmente pela inspeção.
Não sei se vocês sabem o que acontece na noite. Há pessoas, chamadas “promoters” que organizam tais festas. Os celulares deles têm milhares de contatos. Eles são paparicados por todo mundo, porque são eles que determinam que está “dentro” e quem está “fora”. Uma vez, ouvi uma promoter dizer: “pelo amor de Deus, eu nunca vou permitir uma garota de arco entrar aqui... tão última temporada”. Sim, promoters podem ser cruéis. E logo descobri que “não parecer mais velho” era apenas um dos inúmeros pré-requisitos que alguém tinha que ter para participar das festas mais badaladas da cidade. Você tinha que ter boa aparência, ter sucesso e fama!
As festas judaicas não eram muito diferentes das que temos hoje em dia. Algumas eram religiosas, e provavelmente já ouvimos falar muito delas. Entretanto, Jesus fala especificamente de festas privadas, como casamentos e jantares. Isso é porque, como as boates, tais festas tinham “promoters”, e uma lista de quem estava dentro e quem estava fora. Só os ricos e bem-vistos eram convidados. Os excluídos e oprimidos nunca tinham chance de tomar parte nesses eventos. Que vergonha!
Para a cultura judaica antiga, tais festas tinham um significado importante: mostravam aos amigos e família o quão rico e afortunado alguém era. Casamentos, por exemplo, poderiam durar uma semana. Uma semana de festividades: vinho, comida, música e danças. E se algum de vocês já foi a um casamento judaico, provavelmente viu danças alegres em que diferentes pessoas dão-se as mãos e formam círculos enormes num movimento alegre de corpos. Aposto que vocês se juntariam a esse grupo se tivessem chance, como provavelmente fez Jesus, nas festas onde ia.
A idéia de um Deus que dança pode parecer estranha para alguns, especialmente para aqueles que vêm de tradições mais conservadoras. Entretanto, a dança era parte integral das celebrações dos antigos israelitas. Era usada tanto no louvor quanto na vida cotidiana, e em ocasiões de vitória triunfante e festividades. A dança sagrada mediava Deus e a humanidade, levando os hebreus a um relacionamento mais próximo com Jeová. Dançar era tão conectado à vida religiosa deles que, de todas as quarenta e quatro palavras em hebraico para dança, apenas em um pode-se tirar referência a movimentos seculares. A raiz mais freqüente para a palavra “dança” no Velho Testamento é
hul, que se refere ao giro da dança e denota movimento altamente ativo.
A Tradição Cristã Antiga também nos fala da dança. São João Damasceno, no século VIII, usou o termo grego pericorese (
peri – acerca de;
choré – dança) de forma a descrever a existência de múltiplas pessoas divinas umas nas outras, na Santíssima Trindade. É interessante notar que, sozinhas, longe uma das outras, todas as três pessoas são separadas. Entretanto, se elas derem as mãos e dançarem, tornam-se um só Deus. Há uma co-infusão e o que uma faz, as outras podem fazer. Deus está dançando, com certeza.
Deus dança seguindo a brisa gentil que massageia a sua face quando você sai para o trabalho. Deus dança de acordo com o murmurar ininteligível de um bebê. Deus dança seguindo quem corre de pés descalços, na grama. Deus dança de acordo com a aeróbica anglicana: senta, levanta, ajoelha, cruza, agacha, levanta as mãos, bate palmas (OK, somente carismáticos hardcore fariam os dois últimos)... Deus dança valsas de quinze anos e até ao som de Black Eyed Peas. Deus dança ao redor de você quando dorme, e quando a hora chegar, Ela(e) estará lá para levá-la(o) numa dança de amor, aos Céus. Deus dança no compasso da batida do seu coração.

Pericorese, então, não é apenas uma dança da Trindade. Trata-se de um convite para que nos juntemos a Deus nessa dança alegre. Nosso caminho em direção à santidade, de fato, significa juntarmo-nos a Deus e sermos um com Ela(e), ao mesmo tempo em que nos tornamos uns com os outros. E então, como os judeus dançando em grandes círculos, poderemos dar as mãos e nos juntarmos a Deus e a nossos irmãos nesse movimento maravilhoso.
Uma vez, ouvi uma piada dizendo que Jesus foi o melhor promoter de todos os tempos, porque ele “organizou uma festa com nada mais que um pão e um cálice de vinho, e isso dura até hoje”. Jesus arrasa, não é? E essa festa acontece cada domingo em muitas comunidades, ao redor do mundo. É chamada Santa Eucaristia. Quando nos juntamos ao redor do altar, e louvamos a Deus, tomamos parte dessa dança (mesmo sendo difícil para alguns, mas reafirmo: vocês precisam mover os seus corpos um pouco mais). É uma festa de igualdade. A todos, é dada a mesma porção de pão e vinho. Ninguém tem mais ou menos direitos.
O que me desanima, infelizmente, é saber que há alguns que querem ser os “promoters”, quando Jesus foi já foi o principal. Eles querem predefinir quem está dentro e quem está fora dessa festa. E durante esses quase 2000 anos de história da Igreja, isso aconteceu muito mais que podemos imaginar.
Vocês já devem ter visitado igrejas com galerias laterais. Normalmente, igrejas antigas têm essas estruturas, e até mesmo algumas novas, por tradições arquitetônicas. As galerias, contudo, tinham um objetivo muito triste no início: eram construídas para manter os escravos africanos distantes de seus donos. As galerias eram, na verdade, uma forma de segregação. Eram uma barreira humana com a intenção de excluir alguns dos filhos de Deus da vida plena da Igreja.
Quantos negros você vê na Igreja, especialmente em posições de liderança? Não estamos ainda segregando, embora de forma mais sutil?
E sobre as mulheres? Há alguns meses, tive a oportunidade de visitar a Revda. Carmen Etel, a primeira mulher a ser ordenada aqui no Brasil, há mais de vinte anos. Ela compartilhou algumas das lutas daquelas que aspiravam ao sacerdócio, naquela época. Uma interpretação fundamentalista da Bíblia, desprezando belíssimas passagens dos Evangelhos e cartas paulinas, era usada por alguns de modo a segregar aqueles que sempre trabalharam para esta igreja, e foram a maioria de sua membresia. Graças a Deus, em nossa província, as mulheres podem fazer parte do ministério ordenado tríplice.
Mas quantas mulheres ordenadas vocês vêem na Igreja? Ainda não estamos a diminuir-las, pensando que não podem ser tão eficazes quanto os homens no serviço de Deus?
Uma vez, recebi uma mensagem pela internet. Era de um rapaz, chamado Fernando... Ele disse que tinha visto alguns comentários e mensagens que eu publiquei na Internet, e que estava muito feliz com o que tinha lido. Ele era gay, e vivia com seu companheiro em São Paulo. Desde a infância, tinha vivido em conflitos com sua sexualidade, e foi submetido a toda sorte de “tratamentos” na denominação conservadora que freqüentava. Ao fim, desistiu e decidiu não mais acreditar no deus cruel que conheceu. Ainda me lembro de sua frase final: “Posso ir na Igreja Anglicana? Não sou efeminado, e não vou comentar que tenho um companheiro. Posso ir apenas e sentar? Por favor, reze por mim. Quero me achegar a Deus.” E aí pensei: nossa igreja já produziu tanto material teológico de qualidade desmistificando essa questão da homossexualidade. Ele seria bem-vindo em tantas paróquias. Por que isso ainda acontece? Mas antes que eu pudesse respondê-lo, ele tinha apagado sua mensagem.
Quantos Fernandos ainda existem? Buscando um espaço seguro onde podem ser eles mesmos?
Há anos, fui parte de uma igreja localizada numa área de classe média. Havia uma mendiga que sempre ia lá, mas era banida, porque fedia. Então, ela se sentava na frente da igreja, e tentava ouvir o culto. Minutos antes do fim, ela saía, pegava seus pacotes e voltava ao lugar onde normalmente passava o dia, duas quadras longe da igreja. Os comentários dos paroquianos estavam longe de ser amáveis: “ela poderia achar um emprego”, “ela poderia ter tomado banho antes de ir para a igreja”, “por que ela não acha um lugar para viver, ao invés de poluir as ruas”. Alguns membros, entretanto, insistiam em dá-la comida e roupas, os quais ela aceitava de bom grado. A pressão de outros membros para isolá-la da vida comunitária, entretanto, era mais forte. Um dia ela desapareceu. Não tenho a mínima idéia de onde está agora, mas espero em Deus que ela tenha achado um melhor lugar para cultuá-La(o).
Quantos miseráveis ainda são excluídos da nossa vida paroquial? Por que nossas igrejas estão tão vazias de pobres?
Por que a Igreja está ainda tentando dizer quem está “dentro” e quem está “fora”?
Nosso Senhor Jesus Cristo nos sugeriu convidar aqueles que eram considerados os excluídos da sociedade. Ele tinha ciência da nossa tendência em convidar os ricos e famosos, para que pudéssemos ter acesso ao seu mundo sofisticado. Ele sabia que tentaríamos ocupar os lugares mais importantes das festas, para parecermos tão bons e célebres como o anfitrião. Entretanto, não é isso que se esperava de um cristão.

O texto de Hebreus resume o que nós, cristãos, devemos fazer: temos que ser hospitaleiros, e buscar amor fraterno. Amor fraterno significa um coração com compaixão para ouvir o pranto dos oprimidos, quem quer que sejam! Ao fazê-lo, vamos atingir a felicidade. Muitos deles se tornarão como que anjos em nossas vidas (e alguns, creio, são de fato anjos). Ao sermos humildes, compassivos e piedosos, um dia, seremos exaltados por Deus, pois temos um Deus não discrimina ninguém. Mais que isso, nosso Deus destrona os arrogantes e coloca os pobres nos seus tronos.
Ontem, assisti a um vídeo curto sobre anglicanismo. Ele mostrava algumas características da nossa igreja, e quase me levou a lágrimas de alegria, por ser parte de uma igreja que tem se erguido profeticamente a favor da inclusão nos últimos anos, tomando uma posição firme contra a guerra, miséria, opressão e preconceito. O vídeo tinha um slogan: “A Igreja Anglicana espera por você, com mentes abertas, corações abertos, portas abertas...”
Irmãs e irmãos, precisamos convidar, trazer e receber a todos com mentes abertas, corações abertos e portas abertas. Não podemos manter esse segredo conosco. Temos que dançar com Deus, e convidar tantos quanto pudermos para se juntar ao grupo. Nessa dança, todos somos iguais e todos nos tornamos um com Deus. E esse Deus-dançarino vai nos ensinar a dançar melhor essa dança da santidade. Cresceremos juntos. Mas para que os outros se juntem, temos que ser os promoters de Cristo. Não aqueles que dizem quem está fora, mas aqueles que anunciam que todos estão dentro. Nossa igreja é boa demais para não compartilharmos dela.
Nosso objetivo final é convidar a todos para fazer parte da festa dos céus, e desenvolver um relacionamento com Deus por meio da dança divina.
Mentes abertas, corações abertos e portas abertas... Sempre! Amém.
Sermão compartilhado na Bom Jesus, da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, em 02/09/2007.