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Ubuntu - todos nós podemos ter

 -  posted on 16/02/08 at 15:46:40



Quanto a mim, meu sangue está para ser derramado em libação, e chegou o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a minha corrida, conservei a fé. Agora só me resta a coroa da justiça que o Senhor, justo Juiz, me entregará naquele Dia; e não somente para mim, mas para todos os que tiverem esperado com amor a sua manifestação.
Na minha primeira defesa no tribunal, ninguém ficou ao meu lado; todos me abandonaram. Que Deus não ponha isso na conta deles! Mas o Senhor ficou comigo e me encheu de força, a fim de que eu pudesse anunciar toda a mensagem, e ela chegasse aos ouvidos de todas as nações. E assim eu fui liberto da boca do leão. O Senhor me libertará de todo mal e me levará para o seu Reino eterno. Ao Senhor, glória para sempre. Amém!

Para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros, Jesus contou esta parábola: «Dois homens subiram ao Templo para rezar; um era fariseu, o outro era cobrador de impostos. O fariseu, de pé, rezava assim no seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te agradeço, porque não sou como os outros homens, que são ladrões, desonestos, adúlteros, nem como esse cobrador de impostos. Eu faço jejum duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda’. O cobrador de impostos ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!’ Eu declaro a vocês: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva, será humilhado, e quem se humilha, será elevado.»

II Timóteo 4:6-8,16-18 e Lucas 18:9-14 - Próprio 25 depois de Pentecostes (ano C)

A Bíblia (Pastoral)

Não faz muito tempo... Eu era criança, mas não faz muito tempo! Havia no Brasil um comercial de televisão das tesouras da Disney, no qual um menino (com a tesoura do Mickey) e uma menina (com a tesoura da Minnie) cantavam, ou melhor, gritavavam em uníssono: "Eu tenho! Você não tem!" Ou, melhor dizendo:

EU TE-NHÔ! VOCÊ NÃO TEM-NHÊ!

Trinta segundos de tortura televisiva em sua forma mais simples, e uma musiquinha repetitiva que ecoava na voz das crianças ávidas por material escolar da Disney. Com certeza, os pais não deviam estar lá muito contentes, e a propaganda foi considerada tão abusiva que tanto a Disney quanto a agência de publicidade que concebeu-a foram processadas e, creio, perderam na justiça.

Comercial da tesoura do MickeyEntretanto, por mais infantil que imaginemos ser esse tipo de comportamento das crianças no comercial, ele é muito presente nas igrejas da atualidade. Quem não se recorda de já ter ouvido frases como: "quando EU era da Junta Paroquial, isso não teria acontecido", "quando MEU pai era o reitor desta paróquia, as coisas não eram assim", "quando EU era do sodalício do altar, a igreja era um brinco", "agora isto está organizado porque EU estou no comando, e não fulano/a". Não precisam dizer... isso realmente é comum.

EU TE-NHÔ! VOCÊ NÃO TEM-NHÊ!

Aquele fariseu, segundo suas próprias palavras, tinha tudo e fazia tudo. Ele era perfeito aos seus próprios olhos: jejuava e dizimava mais que o requisitado, ia ao templo proferir orações em voz alta e com entonação pomposa... Fazia questão de deixar bem claro sua opinião de que era superior, mais puro, mais santo e mais aceitável que os outros ao seu redor.

O cenário religioso judaico daquela época permitia tal tipo de atitude. Após as querelas relacionadas à reconstrução do Templo de Jerusalém, o período helenista e a reconquista da independência pelos Macabeus, alguns partidos religiosos se formaram em Israel.

Os saduceus reivindicavam serem os descendentes de Sadoque, e únicos capazes de exercer o sacerdócio no Templo. Tinham poder sobre o Templo e sobre o Sinédrio, mesmo tendo perdido o monopólio do último. Eram pragmáticos, elitistas e pouco populares. Abriam concessões a fim de manter seus privilégios, ora pendendo para Roma, ora pendendo para o povo.

Os zelotas eram fundamentalistas muitas vezes violentos, que não toleravam concessões ao poder romano e aos governantes estrangeiros. Seriam algo próximo dos terroristas religiosos dos dias de hoje.

Os essênios, de certa forma, aparentemente, também bastante radicais, mas preferiam viver em comunidades fechadas e isoladas, dedicando-se à sua própria purificação, na esperança de um Messias salvador de Israel.

Já os fariseus eram o partido em ascensão naquela época. Achavam que não bastava o templo ser reconstruído, mas que a vida também tinha de ser pautada pela purificação pessoal e respeito à Lei. Achavam importante educar o povo, e as sinagogas - casas de estudo e oração - eram praticamente todas dominadas por esse partido. Justamente pela sua proximidade com o povo, são os que mais se chocam com os seguidores de Jesus. O poder dos fariseus também acabou por atrair várias pessoas falsas e desonestas, interessadas na ascensão de tal partido.

Este breve resumo mostra o quão fragmentada era a religião judaica naquela época. No próprio templo, havia áreas delimitadas para o Sumo-Sacerdote (Santo dos Santos), para os demais sacerdotes e levitas, para homens, mulheres, crianças e estrangeiros... Além dos partidos religiosos, proliferavam os movimentos de piedade popular, e como o sacerdócio era hereditário, o que havia de fato era um sistema de castas muito bem elaborado, que permitia a certas famílias manterem-se no poder indefinidamente.

Quando Jesus inverte a percepção popular do que é santo (o fariseu) e do que é profano (o cobrador de impostos), Ele mostra que, para Deus, tais divisões são perversões humanas. O Reino de Deus não pode ter barreiras, sejam elas de etnia, sexo ou riqueza. Os atos penitenciais só são válidos aos olhos de Deus quando se tornam fonte de justiça, amor e humildade. Assim, vale muito mais o bater no peito e o coração contrito daquele homem mal-visto pela sociedade, que os jejuns e orações pomposas do outro, visto como um homem de Deus pelo senso comum.

Este sonho de uma comunidade fraterna de irmãos, onde não há barreiras de sexo, nacionalidade ou classe social, é o que o Apóstolo São Paulo tentou implementar nas comunidades cristãs primitivas. Ao sair de forma itinerante, lutando para seu próprio sustento, e proclamando a mensagem de esperança de Deus em Cristo, ele construiu pequenas famílias-igrejas, onde todos compartilhavam da mesma refeição eucarística, onde os pobres e os necessitados eram apoiados pelos mais ricos e onde todos tinham lugar. Essa proposta radical de igualdade dos povos perante Deus era tão desafiadora que, na leitura de II Timóteo, São Paulo nos fala que seu fim está próximo. As autoridades perversas deste mundo, e muitas vezes da igreja institucional, não podiam tolerar uma fé que destrói as barreiras e diminui os privilégios dos poderosos em prol dos pobres...

Na África sub-saariana, existe um conceito filosófico expresso pela palavra ubuntu. É curioso perceber como ubuntu (e suas variantes) é uma palavra presente em várias nações africanas, estando presente entre os Zulus, os Xhosa, e os Bantu. Ubuntu, ao pé da letra, significa "humanidade para os outros", e fora do contexto africano, é muito difícil de se explicar. Entretanto, pode-se dizer que uma pessoa com ubuntu sabe dar apoio aos outros, acolhê-los em suas necessidades e compartilhar de suas dores. Ubuntu significa dar o máximo de si em prol dos outros, sem esperar nada deles.

São Paulo tinha ubuntu. Apesar de todas as perseguições, chegou ao fim de sua vida terrena feliz por ter combatido o bom combate, esperançoso pela coroa da justiça e certo da vitória de Cristo sobre as trevas. Precisamos ter a coragem que ele teve, de proclamar esse Reino de Deus - aqui e agora, para todas as nações. Nesse Reino, não há desigualdade. Não há partidos religiosos. Não há poderosos e oprimidos. Nesse Reino, os humildes são elevados e os poderosos são destronados. E podemos presenciar pedaços deste Reino ainda hoje. É só ter coragem, fé e um pouco de ubuntu.

EU TENHO, E VOCÊ TEM TAMBÉM.

Não nos deixemos levar pelas palavras bonitas dos hipócritas, que no fundo querem criar barreiras para que os pequeninos alcancem a graça de Deus. Fecho esta mensagem com uma citação de Santo Inácio, notável pai da Igreja do século II:

"Observe aqueles que são heterodoxos em relação à graça de Cristo Jesus, que veio a nós. Como são contrários à vontade de Deus! Eles não se importam com a festa de amor, nem com a viúva e o órfão, com o oprimido, o ferido, o liberto, o faminto ou o sedento... Eles não têm consideração pelo amor; desprezam as boas coisas que esperamos do porvir; acham que o presente é durável; ridicularizam aquele que está em aflição; riem do que está acorrentado."

Que tenhamos discernimento para não tolerarmos, nem tomarmos parte, deste tipo de comportamento.

Sermão compartilhado na Paróquia Cristo Rei, da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, em 28/10/2007.