Agradeço àquele que me deu força, a Jesus Cristo nosso Senhor, que me considerou digno de confiança, tomando-me para o seu serviço, apesar de eu ter sido um blasfemo, perseguidor e insolente. Mas eu obtive misericórdia porque eu agia sem saber, longe da fé. Sim, ele me concedeu com maior abundância a sua graça, junto com a fé e o amor que estão em Jesus Cristo. Esta palavra é segura e digna de ser acolhida por todos: Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro. Mas exatamente por causa disto eu obtive misericórdia: Jesus Cristo quis demonstrar toda a sua generosidade primeiramente em mim, como exemplo para os que depois iriam acreditar nele, a fim de terem a vida eterna.
Ao rei dos séculos, ao Deus incorruptível, invisível e único, honra e glória para sempre. Amém!
Todos os cobradores de impostos e pecadores se aproximavam de Jesus para o escutar. Mas os fariseus e os doutores da Lei criticavam a Jesus, dizendo: «Esse homem acolhe pecadores, e come com eles!» Então Jesus contou-lhes esta parábola: «Se um de vocês tem cem ovelhas e perde uma, será que não deixa as noventa e nove no campo para ir atrás da ovelha que se perdeu, até encontrá-la? E quando a encontra, com muita alegria a coloca nos ombros. Chegando em casa, reúne amigos e vizinhos, para dizer: ‘Alegrem-se comigo! Eu encontrei a minha ovelha que estava perdida’. E eu lhes declaro: assim, haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão.»
«Se uma mulher tem dez moedas de prata e perde uma, será que não acende uma lâmpada, varre a casa, e procura cuidadosamente, até encontrar a moeda? Quando a encontra, reúne amigas e vizinhas, para dizer: ‘Alegrem-se comigo! Eu encontrei a moeda que tinha perdido’. E eu lhes declaro: os anjos de Deus sentem a mesma alegria por um só pecador que se converte.»
I Timóteo 1:12-17 e Lucas 15:1-10 - Próprio 19 depois de Pentecostes (ano C)
A Bíblia (Pastoral)
Mas mesmo se vocês não assistiram a essa série (e imagino que neste caso vocês devam estar vivendo numa ilha deserta), provavelmente vocês se lembram de um desenho animado muito famoso nos anos oitenta: Caverna do Dragão. A trama por detrás desse desenho é sobre um grupo de crianças que são jogadas num reino mágico ao entrar numa montanha-russa de um parque de diversões. Elas querem voltar para casa, mas sempre há alguma coisa que as impede de fazê-lo (em 90% das vezes, o culpado é um unicórnio idiota).
Estar perdido, inevitavelmente, não é um sentimento desconhecido para as pessoas. Alguns devem ter se perdido fisicamente, imagino. Conheço uma paroquiana cujo filho se perdeu três vezes dentro de um supermercado, o que agora a força a mantê-lo preso a ela por uma corda, quando saem para fazer compras. Outras pessoas, mesmo já sendo adultas, ainda se perdem. Eu sou uma delas. Eu posso me perder facilmente na direção, e imagino que isso contribui para meu total desinteresse por dirigir carros.
Estar perdido não é uma boa coisa. Não mesmo. Quando alguém se acha só, ela(e) pode achar que não há forma de sair dali. A sociedade também contribui para isso. Já perceberam o impacto que palavras como "perdedor", "perdido", "caso perdido" (e outros derivados do verbo "perder") têm? Posso imaginar, então, os fariseus e doutores da lei murmurando sobre Jesus, o homem que ousava ter um relacionamento pessoal com aqueles pecadores e coletores de impostos, os quais eram, para eles, "casos perdidos".
Em resposta a isso, Jesus deixou três parábolas sobre estar perdido (duas delas no Evangelho de hoje). Uma é sobre ovelhas perdidas. É interessante notar que tais animais podem se perder muito facilmente. As ovelhas tendem a formar grupos para ajuda mútua e proteção. Entretanto, como são animais sensíveis, qualquer coisa pode distrair esses bichinhos felpudos e fazer com que uma (ou até um grupo) se separe do rebanho. Nossas igrejas têm a tendência de ser como tais rebanhos, e não é uma coincidência que as Escrituras e a Igreja usem essa metáfora freqüentemente. As pessoas podem formar grupos de adoração e louvor muito facilmente. Entretanto, é igualmente fácil para elas se distrair ou ofender com os outros, e deixar sua comunidade de fé. Em alguns casos, o pecado (ou até mesmo um comportamento não-pecaminoso, mas que é visto como pecado por muitos), pode fazer alguém se sentir indigno de ser filha(o) de Deus, forçando tal pessoa a fugir da igreja dela. As "ovelhas" remanescentes provavelmente dirão que era um caso perdido mesmo. Aquela pessoa está perdida.
A outra parábola é sobre dinheiro. Uma mulher perde uma de suas dracmas. A dracma era uma moeda antiga de prata, encontrada em muitas cidades-estado gregas e nos reinos que as sucederam, bem como nos reinos asiáticos do período helenístico. Pode ser comparada, mais ou menos, a um pagamento diário médio. No Brasil, isso seria por volta de R$ 40,00, e vou deixar para vocês imaginarem como seria uma nota de quarenta reais. O fato é que ela perdeu uma de tais notas, mas ainda tinha R$ 360,00 sobrando. Era tarde (e provavelmente escuro). A maioria das pessoas (eu inclusive) tentaria achá-la num primeiro momento, mas em caso de insucesso, ficariam ainda satisfeitas por ter a maioria do dinheiro, esperando pelo dia seguinte (e pela luz do sol) para procurar novamente. Estava perdido mesmo!
O que se esquece é que a palavra "perdido" pressupõe dois fatos: que o objeto (ou pessoa) em algum momento não estava perdido, e que ele ainda pode ser encontrado.
É aí que reside a diferença entre Deus e os homens. Deus, aqui representado tanto como um pastor de ovelhas quanto como uma mulher dona-de-casa, não desiste de buscar o que estava perdido. Ela(e) é o pai do rebanho de ovelhas distraídas, e também a mãe do tesouro de moedas de prata que somos nós. E todos nós, seres humanos, fomos destinados a pertencer a Ela(e), desde o início dos tempos. É verdade que o pecado, infelizmente, nos fez "perder" o caminho. Minha esperança, contudo, é saber que não há ninguém que é perdido, mas sim que está perdido. E Deus continua buscando incessantemente por essas pessoas. Nossa postura, como membros do Corpo de Cristo, é entender que todos somos suscetíveis a esse estado de perda, e nesse caminho contínuo de conversão, é bem verdade que provavelmente já nos perdemos (ou tivemos vontade). Jesus, como nos diz a leitura de I Timóteo, veio a este mundo para salvar os pecadores, a fim de que tenham a vida eterna. E a Igreja deve estar de portas abertas, ousando imitar o exemplo de seu mestre, o qual se relacionava com os tidos como pecadores, apesar dos olhares condenatórios dos fariseus que ainda insistem em povoar nossas comunidades. Como cristãos, temos de aprender a enxergar os outros com o olhar misericordioso de Deus, para quem nada é eternamente perdido.
Que a Igreja de Cristo, e em especial esta família de fé, possa entender que somos um lugar de transformação e regeneração dos doentes e dos feridos, e que tenhamos coragem de assumir o exemplo de Cristo, não desistindo nunca, até mesmo daqueles que são tidos como "casos perdidos" pela sociedade.
Sermão compartilhado na Paróquia Cristo Rei, da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, em 16/09/2007.
3 comentários
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18/09/07 @ 13:31
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24/11/07 @ 16:30
Comentários:
Comentário de: Éverton Vidal [Visitante]
· http://www.evvidal.blogspot.com
Sim, a gente precisa tirar da cabeça essa idéia de "alguns estao perdidos desde a eternidade", tal idéia é "evangelho de medo" e só gera desespero.
Por falar nisso, seu texto renovou minhas esperanças. Um forte abraço.
Valeu pela dica dos filósofos lá no meu blog.
Inté!
Por falar nisso, seu texto renovou minhas esperanças. Um forte abraço.
Valeu pela dica dos filósofos lá no meu blog.
Inté!
Acho que a gente "se converte" todos os dias... Hoje resolvi aparecer aqui pra ver se tinha algo novo, e acabei lendo esse texto novamente, e me pareceu novo.
Percebi que a desesperança as vezes quer se apossar da gente, e deixa duvidas sobre a possibilidade de uma mudança, a gente chega a desacreditar do ser humano.
Mas entao olho e vejo que com o tempo Deus mostrou/mostra os erros e ajuda a mudar, faz nascer novas esperanças, e o principal que a fe nas coisas que ele fez, faz brotar o amor pela criaçao. Enfim... os casos perdidos nao estao perdidos, e so estao perdidos enquanto a gente os ve como perdidos.
Abraçao Luiz.
Vc e uma bençao.
Inte!
Percebi que a desesperança as vezes quer se apossar da gente, e deixa duvidas sobre a possibilidade de uma mudança, a gente chega a desacreditar do ser humano.
Mas entao olho e vejo que com o tempo Deus mostrou/mostra os erros e ajuda a mudar, faz nascer novas esperanças, e o principal que a fe nas coisas que ele fez, faz brotar o amor pela criaçao. Enfim... os casos perdidos nao estao perdidos, e so estao perdidos enquanto a gente os ve como perdidos.
Abraçao Luiz.
Vc e uma bençao.
Inte!
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