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Deus está chorando

 -  posted on 27/08/07 at 08:35:04



Vocês não se aproximaram de uma realidade palpável. Ali havia fogo ardente, escuridão, trevas, tempestade, som de trombeta e ruído de palavras. E as pessoas que ouviram isso, suplicaram que Deus não dissesse mais nada.
Entretanto, vocês se aproximaram do monte Sião e da Jerusalém celeste, a cidade do Deus vivo. Vocês se aproximaram de milhares de anjos reunidos em festa, e da assembléia dos primogênitos, que têm o nome inscrito no céu. Vocês se aproximaram de Deus, que é juiz de todos. Vocês se aproximaram dos espíritos justos que chegaram à meta final, e de Jesus, o mediador de uma nova aliança. Vocês se aproximaram do sangue da aspersão, que fala muito mais alto que o sangue de Abel.
Cuidado! Não deixem de escutar aquele que fala a vocês. As pessoas que recusaram escutar aquele que as advertia na terra, não escaparam do castigo. E menos ainda escaparemos nós do castigo, se nos afastarmos de quem nos fala do alto do céu. Aquele, cuja voz um dia abalou a terra, agora diz: «Mais uma vez farei estremecer, não somente a terra, mas também o céu». A expressão «mais uma vez» anuncia o desaparecimento de tudo aquilo que participa da instabilidade do mundo criado, para que permaneça só o que é inabalável. Já que recebemos um reino inabalável, conservemos bem essa graça. Por meio dela, sirvamos a Deus de tal modo que o agrademos, isto é, com respeito e temor. Pois o nosso Deus é um fogo devorador.

Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo caminho para Jerusalém. Alguém lhe perguntou: «Senhor, é verdade que são poucos aqueles que se salvam?» Jesus respondeu: «Façam todo o esforço possível para entrar pela porta estreita, porque eu lhes digo: muitos tentarão entrar, e não conseguirão. Uma vez que o dono da casa se levantar e fechar a porta, vocês vão ficar do lado de fora. E começarão a bater na porta, dizendo: ‘Senhor, abre a porta para nós!’ E ele responderá: ‘Não sei de onde são vocês’. E vocês começarão a dizer: ‘Nós comíamos e bebíamos diante de ti, e tu ensinavas em nossas praças!’ Mas ele responderá: ‘Não sei de onde são vocês. Afastem-se de mim, todos vocês que praticam injustiça!’ Então haverá aí choro e ranger de dentes, quando vocês virem Abraão, Isaac e Jacó junto com todos os profetas no Reino de Deus, e vocês jogados fora. Muita gente virá do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus. Vejam: há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos.»

Hebreus 12:18-19,22-29 e Lucas 13:22-30 - Próprio 16 depois de Pentecostes (ano C)

A Bíblia (Pastoral)

Minha avó de 88 anos carrega o que chamo de gene da melancolia portuguesa. Esse é um termo que eu inventei depois de perceber que é culturalmente português ter essa nostalgia e sensibilidade crescentes à medida que uma pessoa envelhece.

O fato é que, mais que isso, minha avó tem uma sensitividade espiritual que freqüentemente a leva ao choro por conta de fatos do dia-a-dia. Muitas veazes, ela não pode assistir aos noticiários, pois os dramas do mundo a fazem sofrer muito mais que o que ela pode suportar. E quando se trata de assuntos espirituais, pode ser ainda pior. Se ela olha um crucifixo, apenas a idéia de imaginar a dor de Cristo pendurado no madeiro já faz sua pressão subir e seus olhos se encherem de lágrimas.

Por anos, juntei-me ao grupo de parentes que zombavam dela por sua “infantilidade e ingenuidade”. Por anos, eu mesmo não pude chorar. De meados da minha adolescência até alguns anos atrás, prometi a mim mesmo que não choraria novamente. Todos aqueles que me causaram tanta dor não iriam ver minhas lágrimas nunca mais. E aí, comecei a chorar por dentro, até que Deus me resgatou e voltei à Igreja...

Esta semana, entendi a vovó. Há três dias, uma série de eventos na minha vida deram partida à uma sensibilidade extrema às dores dos seres humanos. Eu me peguei chorando sozinho porque um sacerdote que nunca conheci nesta vida morreu de câncer. Chorei ao saber de uma jovem em Curitiba (que nem é uma cidade tão violenta) que foi assassinada neste fim de semana. Ao ver os mendigos na rua, pedindo por comida, também chorei. Chorei porque um amigo foi expulso de casa. Chorei ao perceber que Cristo tomou toda essa dor naquela cruz. É tanta dor...

Deus está chorando também. Você não vê?

A cada treze minutos, um brasileiro é assassinado. R$ 200.000,00 por ano é a quantidade gasta pelo SUS tratando pessoas vitimadas por armas de fogo. Quando este ano terminar, 25 mil brasileiros terão morrido em acidentes de trânsito, muitos tão facilmente evitáveis! Em São Paulo, cerca de 60% dos assassinatos ocorrem por razões fúteis. Somente no Rio, a guerrilha urbana do tráfico mata oito vezes mais que conflitos na Palestina. 30% de todos os assassinos aqui são adolescentes.

Tem mais! No mundo inteiro, há uma arma de fogo para cada doze pessoas. Cada minuto, uma criança morre de AIDS. Oito milhões de crianças neste planeta morrem de fome a cada ano. Um milhão de pessoas em todo o mundo cometem suicídio no mesmo período. Para cada dois bebês que nascem no mundo, há um aborto... 126.000 abortos por dia, muitos por motivos estúpidos. Guerras, muitas em nome de Deus, levaram 185 milhões de pessoas apenas no século XX – uma em cada 22 mortes.

No nosso país, vimos um índio ser queimado por jovens ricos em Brasília. Um professor homossexual foi espancado grotescamente por uma gangue nazista em São Paulo, ao caminhar, sozinho, para casa. Há alguns dias, uma empregada doméstica foi atacada por adolescentes endinheirados, aqui mesmo no Rio. Uma freira americana, Ir. Dorothy Stang, morreu a tiros anos atrás, por ser uma ativista de direitos humanos na Amazônia.

Nós gastamos... recursos, comida, água... Vivemos como se nossos descendentes não precisassem deste mundo. Destruímos esse gigantesco Jardim do Édem chamado Terra. Gaia, este complexo orgânico composto por toda a criação de Deus, está muito doente. E nós nem nos importamos!

Nós não compartilhamos. Nem mesmo um abraço, às vezes! Vemos pessoas em necessidade todos os dias, mas nos acostumamos com a existência delas. Elas não nos incomodam mais.

Eu não queria ser Deus. É muita dor e muita destruição para alguém suportar.

Deus está chorando. Você não vê?

Devo confessar que uma das minhas maiores fraquezas é o ódio. Tendo a odiar aqueles que considero maus. Na minha caminhada cristã, tenho lutado contra esse sentimento recorrente de ódio que sinto ao ver algumas dessas ações (e muitas mais) que aqui citei.

Eu não posso ser Deus! Se fosse Deus, exterminaria a todos com minha varinha mágica. Eles não teriam uma segunda chance, nada! Libertaria o mundo do mal, de todos os modos possíveis.

Deus, entretanto, nos deu uma chance. Há uma porta estreita pela qual qualquer um pode entrar, como nos conta o Evangelho de hoje. Mas por que uma porta estreita? Nos tempos antigos, as cidades tinham muros, para se protegerem de eventuais invasores. Durante o dia, as grandes portas principais ficavam abertas; mas quando caia a noite, elas eram fechadas, e apenas as pequeninas portas laterais poderiam ser utilizadas como entrada, especialmente para mercadores e caravanas. Assim, se alguém estivesse planejando entrar na cidade, tal pessoa realmente precisaria encontrar tais passagens estreitas.

Não é muito agradável passar uma noite no deserto. As temperaturas podem baixar bastante e o vento é violento em tais lugares. Mas se alguém não pudesse encontrar a porta estreita, aquele seria seu destino. Nenhum guarda deixaria alguém entrar pelas portas principais durante a noite.

É interessante notar que a lição de Hebreus nos conta de uma Jerusalém Celestial, a cidade do Deus Vivo, onde Jesus celebra a festa com os santos e os anjos. A imagem dos Céus como uma cidade também foi explorada por vários teólogos cristãos. Santo Agostinho de Hipona escreveu todo um livro, coincidentemente chamado Cidade de Deus, no século V. Nessa época, Roma tinha sido saqueada pelos visigodos, e muitos de seus cidadãos estavam desesperados, pois acreditavam que, após a adoção do Cristianismo como religião oficial, Roma triunfaria como um novo Israel.

Santo Agostinho, porém, argumentou que o Cristianismo deve se preocupar com a mística Nova Jerusalém apenas. A religião não deveria andar de mãos dadas com a política organizada. De fato, ambos estariam sempre em conflito: a Cidade de Deus contra a Cidade dos Homens. Aqueles que se comprometiam com os valores cristãos, tais como paz, justiça e reconciliação, compunham a Cidade de Deus. Os que se afastaram deles eram a Cidade dos Homens. Ao fim, a Cidade de Deus triunfaria.

Jesus quer que todos entrem na Cidade de Deus. É é ousadia minha falar isso aqui nesta comunidade, chamada Cidade de Deus, porém, na qual tantos ainda estão na Cidade dos Homens. Mas como diz nosso texto, tudo o que é instável será removido e apenas o inabalável permanecerá.

É meu desejo profundo que todos tenham uma chance de achar a porta estreita. Espero que as punições que as pessoas infligem nelas mesmas um dia as convençam de seus pecados e as façam arrepender-se de seus caminhos injustos.

Deus chora quando cada um desses seus amados filhos não acha a porta estreita. Você não vê?

A porta é estreita não porque Deus não quer que achemos o caminho para ela. Ela é estreita porque a Cidade de Deus é tão preciosa que não pode ser invadida por aqueles que não se comprometem com o Reino de Cristo. Infelizmente, muitos dizem ser Seus discípulos, mas falham na hora de pôr em prática Sua mensagem. Eles alegam ter comido com Ele, e tê-Lo pregando em suas praças, mas ainda não acharam o caminho para a porta estreita.

O Arcebispo Tutu, Bispo Emérito da Cidade do Cabo, uma vez disse que “não tomar uma posição contra a injustiça é, na prática, tomar uma posição a favor da injustiça”. Às vezes nos sentimos seguros e confortáveis em nossas igrejas. Não nos importamos com a dor e sofrimento que o mundo ao redor de nós sente. O que não sabemos é que, ao fazermos isso, perdemos a porta estreita.

Estamos tão perto da Cidade de Deus! A leitura da epístola diz isso... Estamos na porta dela, e somos convidados para entrar. Tudo o que precisamos fazer é tomar uma decisão. Uma decisão contra o preconceito, a opressão e a violência. Uma decisão contra a incredulidade e a falta de esperança. Uma decisão contra a fome, a pobreza e a miséria. Uma decisão contra tudo o que é contrário a Cristo.

Nosso Senhor Jesus Cristo quer que todos, do oriente, ocidente, norte e sul, venham e celebrem a festa. Como Seus seguidores, é nosso dever alcançar a maioria de pessoas possível e mostrar esse caminho de luz para eles.

Ontem, acordei com uma música na minha cabeça. Como +Tutu, é uma música da África do Sul e é cantada em zulu, uma das muitas línguas daquele país. É composta de uma frase somente: Siyahamba ekukhanyen' kwenkhos' (em português: “Caminhando pela luz de Deus”). Na semana passada, vi até nosso primaz dançando ao som dela em um filme na Internet, o que me fez lembrar de um coral do qual fiz parte anos atrás. Siyahamba era um dos meus hinos preferidos. Ele se encaixa tão bem nesta comunidade, porque é impossível ouvi-lo sem requebrar o corpo.



Espero, de todo o meu coração, que todos caminhemos cada vez mais na luz de Deus, levando conosco a maior quantidade de pessoas que possamos encontrar, rumo à Cidade Celestial.

A Nova Jerusalém está logo ali. Você não vê? Tudo o que precisamos fazer é tomar uma decisão.

E aí, Deus sorrirá. Para sempre. Você pode ver?

Sermão compartilhado na Paróquia Cristo Rei, da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, em 26/08/2007.

3 comentários

Comentários:

Comentário de: Michelle [Visitante] Email
O que poderia dizer?

Te amo
bjs
PermalinkPermalink 30/08/07 @ 16:33
Comentário de: Gustavo Abadie [Visitante] Email
Edificante, singelo e profundamente emocionante. "Caminhamos pela Luz de Deus" é demais!
Abraço Largo,
G.
PermalinkPermalink 01/09/07 @ 00:07
Comentário de: Vidal [Visitante] Email · http://www.evvidal.blogspot.com
Tremi lendo seu texto. Fiquei realmente emocionado.

Li lá em casa (ouvindo Jethrol Tull :D). E sabe... eu vejo Deus sorrir às vezes, sim, entre o choro que ele realmente chora, saem sorriso espremidos aqui e acolá.

Abraço Luiz.
Inté!
PermalinkPermalink 01/09/07 @ 22:40

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