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Jejum e celebração

 -  posted on 20/03/08 at 13:12:35



De fato, eu recebi pessoalmente do Senhor aquilo que transmiti para vocês. Na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, o partiu e disse: «Isto é o meu corpo que é para vocês; façam isto em memória de mim.» Do mesmo modo, após a Ceia, tomou também o cálice, dizendo: «Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue; todas as vezes que vocês beberem dele, façam isso em memória de mim.» Portanto, todas as vezes que vocês comem deste pão e bebem deste cálice, estão anunciando a morte do Senhor, até que ele venha.
Por isso, todo aquele que comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. Portanto, cada um examine a si mesmo antes de comer deste pão e beber deste cálice, pois aquele que come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe a própria condenação. É por isso que entre vocês há tantos fracos e enfermos, e muitos morreram. Se nós examinássemos a nós mesmos, não seríamos julgados; mas, o Senhor nos corrige por meio de seus julgamentos, para que não sejamos condenados com o mundo.

Antes da festa da Páscoa, Jesus sabia que tinha chegado a sua hora. A hora de passar deste mundo para o Pai. Ele, que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim. Durante a ceia, o diabo já tinha posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, o projeto de trair Jesus. Jesus sabia que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos. Sabia também que tinha saído de junto de Deus e que estava voltando para Deus.
Então Jesus se levantou da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. Colocou água na bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando com a toalha que tinha na cintura. Chegou a vez de Simão Pedro. Este disse: «Senhor, tu vais lavar os meus pés?» Jesus respondeu: «Você agora não sabe o que estou fazendo. Ficará sabendo mais tarde.» Pedro disse: «Tu não vais lavar os meus pés nunca!» Jesus respondeu: «Se eu não o lavar, você não terá parte comigo.» Simão Pedro disse: «Senhor, então podes lavar não só os meus pés, mas até as mãos e a cabeça.» Jesus falou: «Quem já tomou banho, só precisa lavar os pés, porque está todo limpo. Vocês também estão limpos, mas nem todos.» Jesus sabia quem o iria trair; por isso é que ele falou: «Nem todos vocês estão limpos.»
Depois de lavar os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto, sentou-se de novo e perguntou: «Vocês compreenderam o que acabei de fazer? Vocês dizem que eu sou o Mestre e o Senhor. E vocês têm razão; eu sou mesmo. Pois bem: eu, que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros. Eu lhes dei um exemplo: vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz. Eu garanto a vocês: o servo não é maior do que o seu senhor, nem o mensageiro é maior do que aquele que o enviou. Se vocês compreenderam isso, serão felizes se o puserem em prática.» Jesus disse: «Agora o Filho do Homem foi glorificado, e também Deus foi glorificado nele. Deus o glorificará em si mesmo, e o glorificará logo.
Filhinhos: vou ficar com vocês só mais um pouco. Vocês vão me procurar, e eu digo agora a vocês o que eu já disse aos judeus: para onde eu vou, vocês não podem ir. Eu dou a vocês um mandamento novo: amem-se uns aos outros. Assim como eu amei vocês, vocês devem se amar uns aos outros. Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos.»

1 Coríntios 11:23-32 e João 13:1-17, 31b-35 - Próprio da Quinta-Feira Santa

A Bíblia (Pastoral)

“Todo aquele que comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignamente ...” Esta passagem da Bíblia sempre foi uma das mais tocantes em toda a minha vida. Eu mesmo me lembro de não ter comungado várias vezes, ao sentir-me incapaz (ou não desejoso) de permitir que Deus me libertasse de um certo pecado, fosse ele pessoal ou coletivo. E eu sei que este é um comportamento bastante atípico, especialmente numa época em que o conceito de pecado foi aparentemente esquecido por muitos e confissão tornou-se um evento cada vez mais raro na vida dos fiéis.

Atos de amor são geralmente enfatizados por circunstâncias imprevisíveis, e os eventos daquela quinta-feira não foram diferentes. O primeiro deles foi o lava-pés. Imagino como os discípulos estavam chocados em ver seu mestre, o Messias, humildemente lavando-lhes os pés. Sim, aquele que tanto os ensinou estava comportando-se como um simples servo. O que eles não sabiam, contudo, era que Jesus, naquela noite, lhes estava ensinando a lição mais importante de todas... um novo mandamento que resumia e consolidava sua mensagem até então.

“Amem uns aos outros como eu os amo.” A força de tal mandamento vai muito além de nosso típico entendimento de amor. O amor de Jesus é tão profundo que alcança até mesmo aquele que o trairia horas depois. Sua humildade é tão impressionante que ele não se importa em lavar pés cansados e sujos, provavelmente cheios de feridas e cicatrizes. Estamos realmente seguindo este novo mandamento de Jesus e esta nova visão de amor? É fácil para nós dizer que amamos nossos próximos e, de fato, muitos de nós repetimos tais versículos cada domingo. É fácil bater no peito e gabar-nos que doamos ofertas ao abrigo local, ou a um asilo em Guatemala ou até mesmo para as Metas do Milênio, mas estamos realmente dispostos a abandonar a facilidade da vida moderna e compartilhar tudo o que temos com os miseráveis? Viveríamos uma vida simples sendo verdadeiramente irmãs e irmãos daqueles que não têm nada mais que arroz e feijão para comer? Iríamos às favelas proclamar o Evangelho àqueles para quem a vida se tornou uma fonte de dor contínua? Alcançaríamos aqueles que odiamos (e que nos odeiam), seja onde estiverem, para contar-lhes que nós os amamos como Jesus nos ama?

Não, não faríamos nada disso. Durante a Quaresma, teoricamente devemos jejuar, abstendo-nos de algumas coisas simples que nos são importantes. Entretanto, quantas vezes já nos pegamos a reclamar da dificuldade que é fazer isso? Quantas vezes quase desistimos do jejum? É difícil, é muito difícil deixar nossa zona de conforto e perceber que, para muita gente ao redor do mundo, nosso jejum é muito mais pomposo que tudo o que eles terão em suas vidas. Realmente nos importamos? Manifestamos, de verdade, esse amor que Jesus nos conclamou a seguir?

Ícone da Última Ceia O auge deste amor é expressado na simples refeição que Jesus compartilhou com seus discípulos logo após o lava-pés. Mais que uma ceia memorial de pão e vinho, mais que um simples ato de ação de graças, a instituição da Santa Eucaristia tornou-se uma forma pela qual os discípulos de Jesus poderiam recapitular seu ato final de amor pela humanidade. Ao doar-se em corpo e sangue, Ele se ofereceu em sacrifício por nós, e fez-nos parte de seu próprio Corpo. Ele compartilhou de nossas dores, e apesar de todo o sofrimento que estava por vir, amou-nos, incondicionalmente, até o fim.

A Eucaristia, portanto, deve significar para nós mais que uma mera cerimônia semanal. É o alimento espiritual que nos nutre e prepara para sermos realmente discípulos de Jesus. Quando tomamos parte do Corpo e do Sangue de Nosso Senhor, nos comprometemos a segui-lO com todo o nosso coração, viver de acordo com seu mandamento e inundar este mundo com o amor de Cristo. A mesma refeição que Ele instituiu naquela noite é uma lembrança contínua de que, mesmo não sendo perfeitos, temos de nos dedicar para sermos o mais dignos possível de tal amor incondicional.

A Quinta Feira Santa, mais que uma simples cerimônia ou uma refeição leve, é um chamado. Ao nos lembrarmos dos últimos momentos de Jesus com seus discípulos antes de ser preso, somos chamados a sermos dignos de tal amor maravilhoso. Somos chamados a verdadeiramente amar toda a humanidade, sacrificando nossos desejos egoístas pelo bem comum. Somos chamados a ir às favelas e proclamar a mensagem de Jesus àqueles que vivem à margem da sociedade. Somos chamados a abraçar nossos inimigos e amá-los com todo o nosso coração. Somos chamados a cuidar dos doentes, dos famintos e dos necessitados. Somos chamados a fazer a diferença, e mostrar ao mundo o verdadeiro significado do amor de Cristo.

Originalmente publicado no Episcopal Café. Se quiser deixar um comentário, por favor, considere a possibilidade de postá-lo lá também, de modo a patrocinar essa fantástica iniciativa da Diocese Episcopal de Washington DC.

 

Por quê?

 -  posted on 08/03/08 at 00:28:23



Nesses dias, aí estava reunido um grupo de mais ou menos cento e vinte pessoas. Pedro levantou-se no meio dos irmãos e falou: «Irmãos, era preciso que se cumprisse aquilo que o Espírito Santo, por meio de Davi, tinha anunciado na Escritura a respeito de Judas, que se tornou o guia daqueles que prenderam Jesus. Judas era um do nosso grupo e participava do nosso serviço. Ele comprou um terreno com o salário da sua iniqüidade; depois caiu de ponta cabeça, arrebentou-se e suas entranhas se esparramaram. A notícia chegou a todos os habitantes de Jerusalém que deram àquele terreno o nome de Hacéldama, que quer dizer campo de sangue, conforme a sua língua. Pois no livro dos Salmos está escrito: ‘Que sua moradia fique deserta e ninguém habite nela.’ E ainda: ‘Que outro ocupe o seu cargo.’ Há outros homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor vivia no meio de nós, desde o batismo de João até o dia em que foi levado ao céu. Agora, é preciso que um deles se junte a nós para testemunhar a ressurreição.»
Então eles apresentaram dois homens: José, chamado Bársabas e apelidado o Justo, e também Matias. Em seguida fizeram esta oração: «Senhor, tu conheces o coração de todos. Mostra-nos qual destes dois tu escolheste para ocupar, no serviço do apostolado, o lugar que Judas abandonou para seguir o seu destino.» Então tiraram a sorte entre os dois. E a sorte caiu em Matias, que foi juntado ao número dos onze apóstolos.

Atos 1:26-25 - Próprio da Festa de São Matias

A Bíblia (Pastoral)

Ícone de São MatiasO relato da escolha de São Matias como um dos apóstolos é uma das histórias bíblicas que mais me intrigavam quando eu era criança. Sempre me perguntava o porquê de Jesus haver escolhido Judas em primeiro lugar, já sabendo que que seria traído alguns anos mais tarde. Se Ele tivesse chamado Matias desde o começo, não teria havido traição. "Jesus não teria sofrido da maneira que ele sofreu. Ele poderia ter apenas ascendido aos Céus após haver terminado sua missão na Terra," pensava eu. Afinal de contas, eu amava (e ainda amo) Jesus o suficiente para não querer imaginá-lo a sofrer.

Curiosamente, também tenho um Matias na minha própria vida: Mathias é meu avô por adoção. Como o apóstolo, ele se tornou membro da minha família depois dos "outros", pois é o segundo esposo de minha avó, e, conseqüentemente, não é meu avô biológico. De fato, nunca conheci meu "verdadeiro" avô, o qual morreu anos e anos antes do meu nascimento. Mathias foi o único avô que conheci. Foi ele quem cuidou de mim, me carregou no colo e me entreteu durante a minha infância. E isso também me intrigava: "por que, se estava no plano de Deus que ele fosse meu avô, ele não se casou com minha avó logo de início?"

É normal ver gente fazendo perguntas parecidas. "Por que isso aconteceu, se não estava previsto?" "Por que a dor, o lamento, a mudança de planos, a decepção?" Eu mesmo eventualmente me surpreendo em pensamentos sobre voltar no tempo para poder mudar acontecimentos que causaram sofrimentos posteriores. Não creio estar sozinho em tais ilusões. Existe até mesmo um hobby, chamado "História Alternativa", que busca propor versões alternativas a alguns capítulos da história mundial, caso certos eventos não tenham acontecido.

E aí me pergunto se aqueles discípulos, que se reuniram em Jerusalém cerca de 2000 anos atrás para eleger um novo apóstolos, não tinham pensamentos similares. Mesmo após terem visto o Cristo ressuscitado, alguns provavelmente ainda questionavam sua nova experiência de Jesus, e imagino que alguns ainda lamentavam por terem "perdido" o Mestre. Eles eram seres humanos, afinal de contas! Entretanto, eles confiaram em Deus e seguiram adiante; ouviram o chamado do Espírito Santo e, unidos em oração, sortearam aquele que Deus havia escolhido para ajudar a Igreja a caminhar durante aqueles tempos difíceis.

E eles tiveram sucesso. A mensagem do Evangelho foi espalhada, mais e mais pessoas ouviram sobre as Boas Novas de Deus em Cristo. Matias foi uma bênção para a Igreja. Ele veio a plantar a mensagem de Cristo no Cáucaso, e passou a ser respeitado e venerado por vários fiéis ao redor do mundo.

Como os primeiros discípulos há 2000 anos, também somos chamados a seguir adiante, discernir a vontade divina, buscar adaptar nossas vidas a ela, e proclamar a mensagem redentora de Deus - até mesmo em meio a dores diárias que nos enchem de desespero e nos fazem questionar Sua vontade, imaginando como seria um mundo sem sofrimento e dor. A Igreja também é chamada, como a amada de Cristo, a lutar pela verdade e integridade - um chamado do qual Deus nunca irá voltar atrás, mesmo quando nós - a Igreja - temos uma história de intrigas, negligência e ódio aos próprios filhos de Deus, e até mesmo a Jesus Cristo!

Entretanto, quando a Igreja humildemente se reúne em oração e submete sua vontade a Deus Todo-Poderoso, Senhor do tempo e espaço, há lugar para cura e transformação. Não precisamos de máquinas do tempo ou de histórias alternativas; precisamos, sim, da serenidade de saber que o mal existente contra nós pode ser redimido por Deus e transformado para o nosso próprio bem, vindo a tornar-se uma oportunidade graciosa para que aprendammos a seguir a direção divina.

São Matias, ora por nós, para que possamos ser representantes de Deus neste mundo ferido. Amém.

Originalmente publicado no Episcopal Café. Se quiser deixar um comentário, por favor, considere a possibilidade de postá-lo lá também, de modo a patrocinar essa fantástica iniciativa da Diocese Episcopal de Washington DC.

 

Ubuntu - todos nós podemos ter

 -  posted on 16/02/08 at 15:46:40



Quanto a mim, meu sangue está para ser derramado em libação, e chegou o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a minha corrida, conservei a fé. Agora só me resta a coroa da justiça que o Senhor, justo Juiz, me entregará naquele Dia; e não somente para mim, mas para todos os que tiverem esperado com amor a sua manifestação.
Na minha primeira defesa no tribunal, ninguém ficou ao meu lado; todos me abandonaram. Que Deus não ponha isso na conta deles! Mas o Senhor ficou comigo e me encheu de força, a fim de que eu pudesse anunciar toda a mensagem, e ela chegasse aos ouvidos de todas as nações. E assim eu fui liberto da boca do leão. O Senhor me libertará de todo mal e me levará para o seu Reino eterno. Ao Senhor, glória para sempre. Amém!

Para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros, Jesus contou esta parábola: «Dois homens subiram ao Templo para rezar; um era fariseu, o outro era cobrador de impostos. O fariseu, de pé, rezava assim no seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te agradeço, porque não sou como os outros homens, que são ladrões, desonestos, adúlteros, nem como esse cobrador de impostos. Eu faço jejum duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda’. O cobrador de impostos ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!’ Eu declaro a vocês: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva, será humilhado, e quem se humilha, será elevado.»

II Timóteo 4:6-8,16-18 e Lucas 18:9-14 - Próprio 25 depois de Pentecostes (ano C)

A Bíblia (Pastoral)

Não faz muito tempo... Eu era criança, mas não faz muito tempo! Havia no Brasil um comercial de televisão das tesouras da Disney, no qual um menino (com a tesoura do Mickey) e uma menina (com a tesoura da Minnie) cantavam, ou melhor, gritavavam em uníssono: "Eu tenho! Você não tem!" Ou, melhor dizendo:

EU TE-NHÔ! VOCÊ NÃO TEM-NHÊ!

Trinta segundos de tortura televisiva em sua forma mais simples, e uma musiquinha repetitiva que ecoava na voz das crianças ávidas por material escolar da Disney. Com certeza, os pais não deviam estar lá muito contentes, e a propaganda foi considerada tão abusiva que tanto a Disney quanto a agência de publicidade que concebeu-a foram processadas e, creio, perderam na justiça.

Comercial da tesoura do MickeyEntretanto, por mais infantil que imaginemos ser esse tipo de comportamento das crianças no comercial, ele é muito presente nas igrejas da atualidade. Quem não se recorda de já ter ouvido frases como: "quando EU era da Junta Paroquial, isso não teria acontecido", "quando MEU pai era o reitor desta paróquia, as coisas não eram assim", "quando EU era do sodalício do altar, a igreja era um brinco", "agora isto está organizado porque EU estou no comando, e não fulano/a". Não precisam dizer... isso realmente é comum.

EU TE-NHÔ! VOCÊ NÃO TEM-NHÊ!

Aquele fariseu, segundo suas próprias palavras, tinha tudo e fazia tudo. Ele era perfeito aos seus próprios olhos: jejuava e dizimava mais que o requisitado, ia ao templo proferir orações em voz alta e com entonação pomposa... Fazia questão de deixar bem claro sua opinião de que era superior, mais puro, mais santo e mais aceitável que os outros ao seu redor.

O cenário religioso judaico daquela época permitia tal tipo de atitude. Após as querelas relacionadas à reconstrução do Templo de Jerusalém, o período helenista e a reconquista da independência pelos Macabeus, alguns partidos religiosos se formaram em Israel.

Os saduceus reivindicavam serem os descendentes de Sadoque, e únicos capazes de exercer o sacerdócio no Templo. Tinham poder sobre o Templo e sobre o Sinédrio, mesmo tendo perdido o monopólio do último. Eram pragmáticos, elitistas e pouco populares. Abriam concessões a fim de manter seus privilégios, ora pendendo para Roma, ora pendendo para o povo.

Os zelotas eram fundamentalistas muitas vezes violentos, que não toleravam concessões ao poder romano e aos governantes estrangeiros. Seriam algo próximo dos terroristas religiosos dos dias de hoje.

Os essênios, de certa forma, aparentemente, também bastante radicais, mas preferiam viver em comunidades fechadas e isoladas, dedicando-se à sua própria purificação, na esperança de um Messias salvador de Israel.

Já os fariseus eram o partido em ascensão naquela época. Achavam que não bastava o templo ser reconstruído, mas que a vida também tinha de ser pautada pela purificação pessoal e respeito à Lei. Achavam importante educar o povo, e as sinagogas - casas de estudo e oração - eram praticamente todas dominadas por esse partido. Justamente pela sua proximidade com o povo, são os que mais se chocam com os seguidores de Jesus. O poder dos fariseus também acabou por atrair várias pessoas falsas e desonestas, interessadas na ascensão de tal partido.

Este breve resumo mostra o quão fragmentada era a religião judaica naquela época. No próprio templo, havia áreas delimitadas para o Sumo-Sacerdote (Santo dos Santos), para os demais sacerdotes e levitas, para homens, mulheres, crianças e estrangeiros... Além dos partidos religiosos, proliferavam os movimentos de piedade popular, e como o sacerdócio era hereditário, o que havia de fato era um sistema de castas muito bem elaborado, que permitia a certas famílias manterem-se no poder indefinidamente.

Quando Jesus inverte a percepção popular do que é santo (o fariseu) e do que é profano (o cobrador de impostos), Ele mostra que, para Deus, tais divisões são perversões humanas. O Reino de Deus não pode ter barreiras, sejam elas de etnia, sexo ou riqueza. Os atos penitenciais só são válidos aos olhos de Deus quando se tornam fonte de justiça, amor e humildade. Assim, vale muito mais o bater no peito e o coração contrito daquele homem mal-visto pela sociedade, que os jejuns e orações pomposas do outro, visto como um homem de Deus pelo senso comum.

Este sonho de uma comunidade fraterna de irmãos, onde não há barreiras de sexo, nacionalidade ou classe social, é o que o Apóstolo São Paulo tentou implementar nas comunidades cristãs primitivas. Ao sair de forma itinerante, lutando para seu próprio sustento, e proclamando a mensagem de esperança de Deus em Cristo, ele construiu pequenas famílias-igrejas, onde todos compartilhavam da mesma refeição eucarística, onde os pobres e os necessitados eram apoiados pelos mais ricos e onde todos tinham lugar. Essa proposta radical de igualdade dos povos perante Deus era tão desafiadora que, na leitura de II Timóteo, São Paulo nos fala que seu fim está próximo. As autoridades perversas deste mundo, e muitas vezes da igreja institucional, não podiam tolerar uma fé que destrói as barreiras e diminui os privilégios dos poderosos em prol dos pobres...

Na África sub-saariana, existe um conceito filosófico expresso pela palavra ubuntu. É curioso perceber como ubuntu (e suas variantes) é uma palavra presente em várias nações africanas, estando presente entre os Zulus, os Xhosa, e os Bantu. Ubuntu, ao pé da letra, significa "humanidade para os outros", e fora do contexto africano, é muito difícil de se explicar. Entretanto, pode-se dizer que uma pessoa com ubuntu sabe dar apoio aos outros, acolhê-los em suas necessidades e compartilhar de suas dores. Ubuntu significa dar o máximo de si em prol dos outros, sem esperar nada deles.

São Paulo tinha ubuntu. Apesar de todas as perseguições, chegou ao fim de sua vida terrena feliz por ter combatido o bom combate, esperançoso pela coroa da justiça e certo da vitória de Cristo sobre as trevas. Precisamos ter a coragem que ele teve, de proclamar esse Reino de Deus - aqui e agora, para todas as nações. Nesse Reino, não há desigualdade. Não há partidos religiosos. Não há poderosos e oprimidos. Nesse Reino, os humildes são elevados e os poderosos são destronados. E podemos presenciar pedaços deste Reino ainda hoje. É só ter coragem, fé e um pouco de ubuntu.

EU TENHO, E VOCÊ TEM TAMBÉM.

Não nos deixemos levar pelas palavras bonitas dos hipócritas, que no fundo querem criar barreiras para que os pequeninos alcancem a graça de Deus. Fecho esta mensagem com uma citação de Santo Inácio, notável pai da Igreja do século II:

"Observe aqueles que são heterodoxos em relação à graça de Cristo Jesus, que veio a nós. Como são contrários à vontade de Deus! Eles não se importam com a festa de amor, nem com a viúva e o órfão, com o oprimido, o ferido, o liberto, o faminto ou o sedento... Eles não têm consideração pelo amor; desprezam as boas coisas que esperamos do porvir; acham que o presente é durável; ridicularizam aquele que está em aflição; riem do que está acorrentado."

Que tenhamos discernimento para não tolerarmos, nem tomarmos parte, deste tipo de comportamento.

Sermão compartilhado na Paróquia Cristo Rei, da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, em 28/10/2007.

 

Lost (perdido)?

 -  posted on 18/09/07 at 04:29:13



Agradeço àquele que me deu força, a Jesus Cristo nosso Senhor, que me considerou digno de confiança, tomando-me para o seu serviço, apesar de eu ter sido um blasfemo, perseguidor e insolente. Mas eu obtive misericórdia porque eu agia sem saber, longe da fé. Sim, ele me concedeu com maior abundância a sua graça, junto com a fé e o amor que estão em Jesus Cristo. Esta palavra é segura e digna de ser acolhida por todos: Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro. Mas exatamente por causa disto eu obtive misericórdia: Jesus Cristo quis demonstrar toda a sua generosidade primeiramente em mim, como exemplo para os que depois iriam acreditar nele, a fim de terem a vida eterna.
Ao rei dos séculos, ao Deus incorruptível, invisível e único, honra e glória para sempre. Amém!

Todos os cobradores de impostos e pecadores se aproximavam de Jesus para o escutar. Mas os fariseus e os doutores da Lei criticavam a Jesus, dizendo: «Esse homem acolhe pecadores, e come com eles!» Então Jesus contou-lhes esta parábola: «Se um de vocês tem cem ovelhas e perde uma, será que não deixa as noventa e nove no campo para ir atrás da ovelha que se perdeu, até encontrá-la? E quando a encontra, com muita alegria a coloca nos ombros. Chegando em casa, reúne amigos e vizinhos, para dizer: ‘Alegrem-se comigo! Eu encontrei a minha ovelha que estava perdida’. E eu lhes declaro: assim, haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão.»
«Se uma mulher tem dez moedas de prata e perde uma, será que não acende uma lâmpada, varre a casa, e procura cuidadosamente, até encontrar a moeda? Quando a encontra, reúne amigas e vizinhas, para dizer: ‘Alegrem-se comigo! Eu encontrei a moeda que tinha perdido’. E eu lhes declaro: os anjos de Deus sentem a mesma alegria por um só pecador que se converte.»

I Timóteo 1:12-17 e Lucas 15:1-10 - Próprio 19 depois de Pentecostes (ano C)

A Bíblia (Pastoral)

Lost - TV SeriesHá uma série popular de televisão, chamada Lost (perdido, em inglês). Recentemente, ela se tornou bastante popular no Brasil, pois o ator Rodrigo Santoro (que também atuou como Xerxes no filme 300) teve um papel secundário em alguns episódios. A série mostra a vida de sobreviventes de um acidente de avião, numa ilha tropical misteriosa, depois do jato ter caído em algum lugar do pacífico, entre a Austrália e os Estados Unidos.

Mas mesmo se vocês não assistiram a essa série (e imagino que neste caso vocês devam estar vivendo numa ilha deserta), provavelmente vocês se lembram de um desenho animado muito famoso nos anos oitenta: Caverna do Dragão. A trama por detrás desse desenho é sobre um grupo de crianças que são jogadas num reino mágico ao entrar numa montanha-russa de um parque de diversões. Elas querem voltar para casa, mas sempre há alguma coisa que as impede de fazê-lo (em 90% das vezes, o culpado é um unicórnio idiota).

Estar perdido, inevitavelmente, não é um sentimento desconhecido para as pessoas. Alguns devem ter se perdido fisicamente, imagino. Conheço uma paroquiana cujo filho se perdeu três vezes dentro de um supermercado, o que agora a força a mantê-lo preso a ela por uma corda, quando saem para fazer compras. Outras pessoas, mesmo já sendo adultas, ainda se perdem. Eu sou uma delas. Eu posso me perder facilmente na direção, e imagino que isso contribui para meu total desinteresse por dirigir carros.

Estar perdido não é uma boa coisa. Não mesmo. Quando alguém se acha só, ela(e) pode achar que não há forma de sair dali. A sociedade também contribui para isso. Já perceberam o impacto que palavras como "perdedor", "perdido", "caso perdido" (e outros derivados do verbo "perder") têm? Posso imaginar, então, os fariseus e doutores da lei murmurando sobre Jesus, o homem que ousava ter um relacionamento pessoal com aqueles pecadores e coletores de impostos, os quais eram, para eles, "casos perdidos".

Em resposta a isso, Jesus deixou três parábolas sobre estar perdido (duas delas no Evangelho de hoje). Uma é sobre ovelhas perdidas. É interessante notar que tais animais podem se perder muito facilmente. As ovelhas tendem a formar grupos para ajuda mútua e proteção. Entretanto, como são animais sensíveis, qualquer coisa pode distrair esses bichinhos felpudos e fazer com que uma (ou até um grupo) se separe do rebanho. Nossas igrejas têm a tendência de ser como tais rebanhos, e não é uma coincidência que as Escrituras e a Igreja usem essa metáfora freqüentemente. As pessoas podem formar grupos de adoração e louvor muito facilmente. Entretanto, é igualmente fácil para elas se distrair ou ofender com os outros, e deixar sua comunidade de fé. Em alguns casos, o pecado (ou até mesmo um comportamento não-pecaminoso, mas que é visto como pecado por muitos), pode fazer alguém se sentir indigno de ser filha(o) de Deus, forçando tal pessoa a fugir da igreja dela. As "ovelhas" remanescentes provavelmente dirão que era um caso perdido mesmo. Aquela pessoa está perdida.

A outra parábola é sobre dinheiro. Uma mulher perde uma de suas dracmas. A dracma era uma moeda antiga de prata, encontrada em muitas cidades-estado gregas e nos reinos que as sucederam, bem como nos reinos asiáticos do período helenístico. Pode ser comparada, mais ou menos, a um pagamento diário médio. No Brasil, isso seria por volta de R$ 40,00, e vou deixar para vocês imaginarem como seria uma nota de quarenta reais. O fato é que ela perdeu uma de tais notas, mas ainda tinha R$ 360,00 sobrando. Era tarde (e provavelmente escuro). A maioria das pessoas (eu inclusive) tentaria achá-la num primeiro momento, mas em caso de insucesso, ficariam ainda satisfeitas por ter a maioria do dinheiro, esperando pelo dia seguinte (e pela luz do sol) para procurar novamente. Estava perdido mesmo!

O que se esquece é que a palavra "perdido" pressupõe dois fatos: que o objeto (ou pessoa) em algum momento não estava perdido, e que ele ainda pode ser encontrado.

É aí que reside a diferença entre Deus e os homens. Deus, aqui representado tanto como um pastor de ovelhas quanto como uma mulher dona-de-casa, não desiste de buscar o que estava perdido. Ela(e) é o pai do rebanho de ovelhas distraídas, e também a mãe do tesouro de moedas de prata que somos nós. E todos nós, seres humanos, fomos destinados a pertencer a Ela(e), desde o início dos tempos. É verdade que o pecado, infelizmente, nos fez "perder" o caminho. Minha esperança, contudo, é saber que não há ninguém que é perdido, mas sim que está perdido. E Deus continua buscando incessantemente por essas pessoas. Nossa postura, como membros do Corpo de Cristo, é entender que todos somos suscetíveis a esse estado de perda, e nesse caminho contínuo de conversão, é bem verdade que provavelmente já nos perdemos (ou tivemos vontade). Jesus, como nos diz a leitura de I Timóteo, veio a este mundo para salvar os pecadores, a fim de que tenham a vida eterna. E a Igreja deve estar de portas abertas, ousando imitar o exemplo de seu mestre, o qual se relacionava com os tidos como pecadores, apesar dos olhares condenatórios dos fariseus que ainda insistem em povoar nossas comunidades. Como cristãos, temos de aprender a enxergar os outros com o olhar misericordioso de Deus, para quem nada é eternamente perdido.

Que a Igreja de Cristo, e em especial esta família de fé, possa entender que somos um lugar de transformação e regeneração dos doentes e dos feridos, e que tenhamos coragem de assumir o exemplo de Cristo, não desistindo nunca, até mesmo daqueles que são tidos como "casos perdidos" pela sociedade.

Sermão compartilhado na Paróquia Cristo Rei, da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, em 16/09/2007.

 

A divina festa dançante

 -  posted on 03/09/07 at 18:02:50



A soberba é odiosa para o Senhor e para os homens, e os dois abominam a injustiça. O poder passa de uma nação para outra por causa da injustiça, da violência e das riquezas. Por que se orgulha quem é pó e cinza, se quando vivo já tem podridão nos intestinos? Uma longa doença desafia o médico, e quem hoje é rei, amanhã morrerá. Quando o homem morre, recebe de herança insetos, feras e vermes. A essência do orgulho humano é afastar-se do Senhor e manter o coração longe de quem o criou. O pecado é o princípio do orgulho. Quem se entrega a ele espalha abominação. Por isso, o Senhor pune a pessoa com castigos incríveis, e a destrói completamente. O Senhor derruba o trono dos poderosos e faz os humilhados assentar-se no lugar deles. O Senhor arranca a raiz das nações, e no lugar delas planta os oprimidos. O Senhor destrói o território das nações e o arrasa até os alicerces. Ele arranca as nações e as aniquila, e faz desaparecer da terra a lembrança delas. O orgulho não foi feito para o homem, nem a ira violenta para os nascidos de mulher.

Perseverem no amor fraterno. Não se esqueçam da hospitalidade, pois algumas pessoas, graças a ela, sem saber acolheram anjos. Lembrem-se dos presos, como se vocês estivessem na prisão com eles. Lembrem-se dos que são torturados, pois vocês também têm um corpo.
Que todos respeitem o matrimônio e não desonrem o leito nupcial, pois Deus julgará os libertinos e adúlteros. Que a conduta de vocês não seja inspirada pelo amor ao dinheiro. Cada um fique satisfeito com o que tem, pois Deus disse: «Eu nunca deixarei você, nunca o abandonarei.» Assim, podemos dizer com ânimo: «O Senhor está comigo, eu não temo. O que é que me poderá fazer um homem?» Lembrem-se dos dirigentes, que ensinaram a vocês a Palavra de Deus. Imitem a fé que eles tinham, tendo presente como eles morreram.
Jesus Cristo é o mesmo, ontem e hoje, e será sempre o mesmo.

Num dia de sábado aconteceu que Jesus foi comer em casa de um dos chefes dos fariseus, que o observavam.
Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então contou a eles uma parábola: «Se alguém convida você para uma festa de casamento, não ocupe o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que você; e o dono da casa, que convidou os dois, venha dizer a você: ‘Dê o lugar para ele’. Então você ficará envergonhado e irá ocupar o último lugar. Pelo contrário, quando você for convidado, vá sentar-se no último lugar. Assim, quando chegar quem o convidou, ele dirá a você: ‘Amigo, venha mais para cima’. E isso vai ser uma honra para você na presença de todos os convidados. De fato, quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado.»
Jesus disse também ao fariseu que o tinha convidado: «Quando você der um almoço ou jantar, não convide amigos, nem irmãos, nem parentes, nem vizinhos ricos. Porque esses irão, em troca, convidar você. E isso será para você recompensa. Pelo contrário, quando você der uma festa, convide pobres, aleijados, mancos e cegos. Então você será feliz! Porque eles não lhe podem retribuir. E você receberá a recompensa na ressurreição dos justos.»

Sirácida 10:7-18, Hebreus 13:1-8 e Lucas 14:1,7-14 - Próprio 17 depois de Pentecostes (ano C)

A Bíblia (Pastoral)

O tempo passa muito rápido, e logo estarei com vinte e seis anos (já não é muito?). Entretanto, Deus me abençoou imensamente e não acredito que eu pareça tão velho (ó céus)! Bem, mesmo parecendo ser uma piada, algumas pessoas ainda acreditam que eu tenho apenas dezoito anos, e isso tem sido muito comum na minha vida. Sempre pareci mais jovem (e espero ainda parecer) que o que eu era.

O Evangelho de hoje fala de festas: muitas delas! Eu amo festas e sempre amei dançar! Quem não ama? E quando eu estava para fazer dezoito anos, ficava ansioso para poder ir às baladas que aconteciam nas boates mais conhecidas do Rio. Era uma época de redescoberta na minha vida (infelizmente, longe de Deus) e as badalações eram parte disso, especialmente para mim que vim de uma tradição que considerava tais eventos inerentemente pecaminosos. O problema é que eu parecia mais jovem! Nunca que eu convenceria os funcionários dos nightclubs que tinha idade para entrar, enquanto amigas e amigos, que pareciam mais velhos, passavam facilmente pela inspeção.

Não sei se vocês sabem o que acontece na noite. Há pessoas, chamadas “promoters” que organizam tais festas. Os celulares deles têm milhares de contatos. Eles são paparicados por todo mundo, porque são eles que determinam que está “dentro” e quem está “fora”. Uma vez, ouvi uma promoter dizer: “pelo amor de Deus, eu nunca vou permitir uma garota de arco entrar aqui... tão última temporada”. Sim, promoters podem ser cruéis. E logo descobri que “não parecer mais velho” era apenas um dos inúmeros pré-requisitos que alguém tinha que ter para participar das festas mais badaladas da cidade. Você tinha que ter boa aparência, ter sucesso e fama!

As festas judaicas não eram muito diferentes das que temos hoje em dia. Algumas eram religiosas, e provavelmente já ouvimos falar muito delas. Entretanto, Jesus fala especificamente de festas privadas, como casamentos e jantares. Isso é porque, como as boates, tais festas tinham “promoters”, e uma lista de quem estava dentro e quem estava fora. Só os ricos e bem-vistos eram convidados. Os excluídos e oprimidos nunca tinham chance de tomar parte nesses eventos. Que vergonha!

Para a cultura judaica antiga, tais festas tinham um significado importante: mostravam aos amigos e família o quão rico e afortunado alguém era. Casamentos, por exemplo, poderiam durar uma semana. Uma semana de festividades: vinho, comida, música e danças. E se algum de vocês já foi a um casamento judaico, provavelmente viu danças alegres em que diferentes pessoas dão-se as mãos e formam círculos enormes num movimento alegre de corpos. Aposto que vocês se juntariam a esse grupo se tivessem chance, como provavelmente fez Jesus, nas festas onde ia.

A idéia de um Deus que dança pode parecer estranha para alguns, especialmente para aqueles que vêm de tradições mais conservadoras. Entretanto, a dança era parte integral das celebrações dos antigos israelitas. Era usada tanto no louvor quanto na vida cotidiana, e em ocasiões de vitória triunfante e festividades. A dança sagrada mediava Deus e a humanidade, levando os hebreus a um relacionamento mais próximo com Jeová. Dançar era tão conectado à vida religiosa deles que, de todas as quarenta e quatro palavras em hebraico para dança, apenas em um pode-se tirar referência a movimentos seculares. A raiz mais freqüente para a palavra “dança” no Velho Testamento é hul, que se refere ao giro da dança e denota movimento altamente ativo.

A Tradição Cristã Antiga também nos fala da dança. São João Damasceno, no século VIII, usou o termo grego pericorese (peri – acerca de; choré – dança) de forma a descrever a existência de múltiplas pessoas divinas umas nas outras, na Santíssima Trindade. É interessante notar que, sozinhas, longe uma das outras, todas as três pessoas são separadas. Entretanto, se elas derem as mãos e dançarem, tornam-se um só Deus. Há uma co-infusão e o que uma faz, as outras podem fazer. Deus está dançando, com certeza.

Deus dança seguindo a brisa gentil que massageia a sua face quando você sai para o trabalho. Deus dança de acordo com o murmurar ininteligível de um bebê. Deus dança seguindo quem corre de pés descalços, na grama. Deus dança de acordo com a aeróbica anglicana: senta, levanta, ajoelha, cruza, agacha, levanta as mãos, bate palmas (OK, somente carismáticos hardcore fariam os dois últimos)... Deus dança valsas de quinze anos e até ao som de Black Eyed Peas. Deus dança ao redor de você quando dorme, e quando a hora chegar, Ela(e) estará lá para levá-la(o) numa dança de amor, aos Céus. Deus dança no compasso da batida do seu coração.

Dança na Catedral da Santíssima Trindade, no RecifePericorese, então, não é apenas uma dança da Trindade. Trata-se de um convite para que nos juntemos a Deus nessa dança alegre. Nosso caminho em direção à santidade, de fato, significa juntarmo-nos a Deus e sermos um com Ela(e), ao mesmo tempo em que nos tornamos uns com os outros. E então, como os judeus dançando em grandes círculos, poderemos dar as mãos e nos juntarmos a Deus e a nossos irmãos nesse movimento maravilhoso.

Uma vez, ouvi uma piada dizendo que Jesus foi o melhor promoter de todos os tempos, porque ele “organizou uma festa com nada mais que um pão e um cálice de vinho, e isso dura até hoje”. Jesus arrasa, não é? E essa festa acontece cada domingo em muitas comunidades, ao redor do mundo. É chamada Santa Eucaristia. Quando nos juntamos ao redor do altar, e louvamos a Deus, tomamos parte dessa dança (mesmo sendo difícil para alguns, mas reafirmo: vocês precisam mover os seus corpos um pouco mais). É uma festa de igualdade. A todos, é dada a mesma porção de pão e vinho. Ninguém tem mais ou menos direitos.

O que me desanima, infelizmente, é saber que há alguns que querem ser os “promoters”, quando Jesus foi já foi o principal. Eles querem predefinir quem está dentro e quem está fora dessa festa. E durante esses quase 2000 anos de história da Igreja, isso aconteceu muito mais que podemos imaginar.

Vocês já devem ter visitado igrejas com galerias laterais. Normalmente, igrejas antigas têm essas estruturas, e até mesmo algumas novas, por tradições arquitetônicas. As galerias, contudo, tinham um objetivo muito triste no início: eram construídas para manter os escravos africanos distantes de seus donos. As galerias eram, na verdade, uma forma de segregação. Eram uma barreira humana com a intenção de excluir alguns dos filhos de Deus da vida plena da Igreja.

Quantos negros você vê na Igreja, especialmente em posições de liderança? Não estamos ainda segregando, embora de forma mais sutil?

E sobre as mulheres? Há alguns meses, tive a oportunidade de visitar a Revda. Carmen Etel, a primeira mulher a ser ordenada aqui no Brasil, há mais de vinte anos. Ela compartilhou algumas das lutas daquelas que aspiravam ao sacerdócio, naquela época. Uma interpretação fundamentalista da Bíblia, desprezando belíssimas passagens dos Evangelhos e cartas paulinas, era usada por alguns de modo a segregar aqueles que sempre trabalharam para esta igreja, e foram a maioria de sua membresia. Graças a Deus, em nossa província, as mulheres podem fazer parte do ministério ordenado tríplice.

Mas quantas mulheres ordenadas vocês vêem na Igreja? Ainda não estamos a diminuir-las, pensando que não podem ser tão eficazes quanto os homens no serviço de Deus?

Uma vez, recebi uma mensagem pela internet. Era de um rapaz, chamado Fernando... Ele disse que tinha visto alguns comentários e mensagens que eu publiquei na Internet, e que estava muito feliz com o que tinha lido. Ele era gay, e vivia com seu companheiro em São Paulo. Desde a infância, tinha vivido em conflitos com sua sexualidade, e foi submetido a toda sorte de “tratamentos” na denominação conservadora que freqüentava. Ao fim, desistiu e decidiu não mais acreditar no deus cruel que conheceu. Ainda me lembro de sua frase final: “Posso ir na Igreja Anglicana? Não sou efeminado, e não vou comentar que tenho um companheiro. Posso ir apenas e sentar? Por favor, reze por mim. Quero me achegar a Deus.” E aí pensei: nossa igreja já produziu tanto material teológico de qualidade desmistificando essa questão da homossexualidade. Ele seria bem-vindo em tantas paróquias. Por que isso ainda acontece? Mas antes que eu pudesse respondê-lo, ele tinha apagado sua mensagem.

Quantos Fernandos ainda existem? Buscando um espaço seguro onde podem ser eles mesmos?

Há anos, fui parte de uma igreja localizada numa área de classe média. Havia uma mendiga que sempre ia lá, mas era banida, porque fedia. Então, ela se sentava na frente da igreja, e tentava ouvir o culto. Minutos antes do fim, ela saía, pegava seus pacotes e voltava ao lugar onde normalmente passava o dia, duas quadras longe da igreja. Os comentários dos paroquianos estavam longe de ser amáveis: “ela poderia achar um emprego”, “ela poderia ter tomado banho antes de ir para a igreja”, “por que ela não acha um lugar para viver, ao invés de poluir as ruas”. Alguns membros, entretanto, insistiam em dá-la comida e roupas, os quais ela aceitava de bom grado. A pressão de outros membros para isolá-la da vida comunitária, entretanto, era mais forte. Um dia ela desapareceu. Não tenho a mínima idéia de onde está agora, mas espero em Deus que ela tenha achado um melhor lugar para cultuá-La(o).

Quantos miseráveis ainda são excluídos da nossa vida paroquial? Por que nossas igrejas estão tão vazias de pobres?

Por que a Igreja está ainda tentando dizer quem está “dentro” e quem está “fora”?

Nosso Senhor Jesus Cristo nos sugeriu convidar aqueles que eram considerados os excluídos da sociedade. Ele tinha ciência da nossa tendência em convidar os ricos e famosos, para que pudéssemos ter acesso ao seu mundo sofisticado. Ele sabia que tentaríamos ocupar os lugares mais importantes das festas, para parecermos tão bons e célebres como o anfitrião. Entretanto, não é isso que se esperava de um cristão.

Jesus dançante na Igreja Episcopal de São Gregório de Nissa (San Francisco)O texto de Hebreus resume o que nós, cristãos, devemos fazer: temos que ser hospitaleiros, e buscar amor fraterno. Amor fraterno significa um coração com compaixão para ouvir o pranto dos oprimidos, quem quer que sejam! Ao fazê-lo, vamos atingir a felicidade. Muitos deles se tornarão como que anjos em nossas vidas (e alguns, creio, são de fato anjos). Ao sermos humildes, compassivos e piedosos, um dia, seremos exaltados por Deus, pois temos um Deus não discrimina ninguém. Mais que isso, nosso Deus destrona os arrogantes e coloca os pobres nos seus tronos.

Ontem, assisti a um vídeo curto sobre anglicanismo. Ele mostrava algumas características da nossa igreja, e quase me levou a lágrimas de alegria, por ser parte de uma igreja que tem se erguido profeticamente a favor da inclusão nos últimos anos, tomando uma posição firme contra a guerra, miséria, opressão e preconceito. O vídeo tinha um slogan: “A Igreja Anglicana espera por você, com mentes abertas, corações abertos, portas abertas...”

Irmãs e irmãos, precisamos convidar, trazer e receber a todos com mentes abertas, corações abertos e portas abertas. Não podemos manter esse segredo conosco. Temos que dançar com Deus, e convidar tantos quanto pudermos para se juntar ao grupo. Nessa dança, todos somos iguais e todos nos tornamos um com Deus. E esse Deus-dançarino vai nos ensinar a dançar melhor essa dança da santidade. Cresceremos juntos. Mas para que os outros se juntem, temos que ser os promoters de Cristo. Não aqueles que dizem quem está fora, mas aqueles que anunciam que todos estão dentro. Nossa igreja é boa demais para não compartilharmos dela.

Nosso objetivo final é convidar a todos para fazer parte da festa dos céus, e desenvolver um relacionamento com Deus por meio da dança divina.

Mentes abertas, corações abertos e portas abertas... Sempre! Amém.

Sermão compartilhado na Bom Jesus, da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, em 02/09/2007.